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O Uruguai adotou uma casta francesa e a batizou com o sobrenome de quem a plantou. A garrafa sai por R$ 59 e nasceu pra carne gorda.
Em 1870, um imigrante basco chamado Pascual Harriague plantou no norte do Uruguai as mudas de uma casta que o sudoeste da França cultivava havia séculos. A uva pegou tão bem no solo uruguaio que por décadas o país a chamou pelo sobrenome dele, e não pelo nome verdadeiro.
A casta se chama Tannat, carrega tanino na própria raiz do nome e vem de Madiran, no pé dos Pirineus, região de língua e cozinha bascas. É a tinta com mais tanino medido entre as comerciais, e na França o vinho jovem pede anos de garrafa antes de ficar agradável.
O que mudou no Uruguai foi o clima. O país fica espremido entre o Atlântico e o Rio da Prata, o verão chega úmido e a maturação acontece devagar, e a mesma uva que na França sai áspera ali sai com o aperto arredondado.
A geografia da produção cabe num departamento. Canelones, logo acima de Montevidéu, concentra a maior parte dos vinhedos do país, e boa parte das vinícolas fica a menos de uma hora do centro da capital.
O tamanho do setor explica parte do preço. O Uruguai inteiro tem cerca de seis mil hectares de vinhedo, menos do que uma sub-região argentina sozinha, e a garrafa chega sem o custo de marketing que a vizinha carrega.
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O tanino que a França precisou domar com anos de garrafa chega pronto do Uruguai, e é ele que encara a gordura da costela.
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O preço na prateleira: R$ 69 na rede de mercado grande e R$ 59 no e-commerce, apurado em 09/08. A diferença entre as duas origens paga meia garrafa por caixa fechada, e é o motivo de o vinho render mais quando a compra sai do impulso da gôndola.
Na boca, o rótulo da faixa de hoje chega escuro e denso, com álcool na casa dos quatorze graus e um aperto de gengiva no fim do gole. Sozinho ele parece sério demais, e com carne gorda na frente o mesmo aperto vira a melhor parte.
Na prateleira, procure a palavra Tannat na frente e a origem logo abaixo: Canelones, Las Piedras, Progreso, Juanicó ou Montevideo. A faixa numerada do INAVI, o instituto que regula o vinho por lá, vem colada no gargalo das garrafas de qualidade preferente.
Rótulo com a palavra Roble passou meses em barrica e chega com baunilha e corpo mais quadrado. Em carne branca a madeira atrapalha, e em costela de cinco horas ela cabe bem.
A gôndola atrapalha a comparação. O uruguaio costuma ficar na prateleira de baixo, longe da ponta de promoção, e o preço que vale é sempre o que passa no caixa.
Dentro da faixa de R$ 50 a R$ 100, a garrafa de hoje é essa: uruguaia, Tannat, de Canelones, R$ 59 na origem mais barata. O que ela pede em troca é gordura e sal na mesa, e a costela de domingo entrega os dois com folga.
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