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Vinha em degrau de xisto, dez anos de barril, açúcar de sobra. Ela sai por R$ 119.
O vinho do Porto nasceu de uma viagem malfeita: o tonel embarcado para a Inglaterra chegava azedo depois de semanas de mar, e a aguardente entrou na conta como conservante antes de virar assinatura de estilo. O reforço apareceu no século XVIII e só virou regra no seguinte.
O comércio ganhou empurrão de tratado. O acordo entre Portugal e Inglaterra em 1703 derrubou o imposto sobre o vinho português nas ilhas britânicas, e o barril do Douro tomou o lugar do francês em Londres.
O vinho descia o rio no barco de fundo chato chamado rabelo e ficava na margem sul. Vila Nova de Gaia tem armazém de teto alto, parede grossa e ar úmido do mar, e a temperatura ali oscila menos que no vale.
A fermentação do Porto termina antes da hora. Quando metade do açúcar da uva ainda não virou álcool, o produtor adiciona aguardente vínica a setenta e sete graus, o fermento para de trabalhar e o açúcar que restava fica na garrafa.
A conta final aparece no rótulo. O vinho chega com perto de vinte graus de álcool e algo em torno de cem gramas de açúcar por litro, contra menos de dois gramas de um tinto seco da mesma prateleira.
Depois vem o casco, e é ele que separa o tawny do resto. O vinho envelhece em pipas de carvalho de quinhentos e cinquenta litros, e o barril pequeno deixa muito mais vinho encostado na madeira e no ar do que um tanque de cimento.
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Dez anos de casco trocam a fruta vermelha por noz, figo seco e caramelo, e é essa troca que o cacau pede.
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A indicação de idade não é safra. O dez no rótulo é a idade média do lote, uma mistura de vinhos de anos diferentes que uma câmara de provadores do instituto do Douro aprova antes de o número entrar no papel.
O preço na prateleira: R$ 155 na importadora de shopping e R$ 119 no e-commerce, apurado em 15/08. São trinta e seis reais de diferença na mesma garrafa e no mesmo lote, e a compra planejada fica com eles no bolso.
Na taça, o rótulo de hoje chega cor de telha com borda âmbar, com noz, figo seco, caramelo e casca de laranja no fundo, vinte graus de álcool e um final doce que dura quase um minuto na boca.
Na prateleira, procure as palavras Tawny e 10 Anos juntas no rótulo, com o selo numerado do instituto colado no gargalo. Tawny sem indicação de idade custa um terço, passa dois ou três anos em casco e chega raso ao lado do bolo.
Dentro da faixa acima de R$ 100, a garrafa de hoje é essa: portuguesa, DOC Porto, Tawny de dez anos, R$ 119 na origem mais barata. O que ela pede em troca é açúcar e gordura no prato, e o bolo de aniversário chega com os dois em dose alta.
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