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Mendoza de altitude, casca grossa, tanino macio. R$ 69.
Em 17 de abril de 1853, o presidente Domingo Faustino Sarmiento assinou o projeto da Quinta Normal de Agricultura de Mendoza e contratou o agrônomo francês Michel Aimé Pouget pra tocar a escola. Pouget desembarcou com mudas francesas na bagagem, e entre elas estava a Malbec.
Na França ela tinha endereço fixo em Cahors, e o vinho de lá era tão escuro que ganhou apelido de vinho negro. Escuro, tânico e áspero na juventude, feito pra guardar anos antes de ficar bebível.
A França parou de plantar a uva depois de uma noite. Na geada de fevereiro de 1956, a temperatura despencou no sudoeste e matou boa parte dos vinhedos, e a Malbec, sensível ao frio e ao míldio, não foi replantada na mesma escala.
Mendoza fez o caminho oposto. Enquanto a área francesa encolhia, a argentina crescia, e hoje o país concentra a maior superfície de Malbec do mundo, com a maior parte dela dentro da província de Mendoza.
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A uva que a França achou difícil demais virou a assinatura de um país inteiro.
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A altitude é o que muda o vinho. Luján de Cuyo fica perto de mil metros e o Valle de Uco passa de mil e cem, e a viticultura de Mendoza sobe até altitudes que na Europa seriam consideradas impossíveis.
Quanto mais alto, mais radiação ultravioleta bate na parreira. A planta responde engrossando a casca e produzindo mais polifenol, e casca grossa entrega cor densa, tanino abundante e aroma concentrado.
A amplitude térmica faz o resto do serviço. O dia passa dos trinta graus e a noite cai pra casa dos doze, então o açúcar amadurece de dia e a acidez fica preservada de noite, e a uva chega na cantina madura sem virar compota.
O preço na prateleira: R$ 89 na importadora de shopping e R$ 69 no e-commerce, apurado em 18/08. São vinte reais na mesma garrafa e no mesmo lote, e a diferença some quando a compra é planejada com uma semana de antecedência.
Na taça, o rótulo de hoje chega roxo escuro, com ameixa, amora e um fundo de violeta, álcool na casa dos catorze graus, tanino macio de textura aveludada e acidez média.
Na prateleira, procure Luján de Cuyo ou Valle de Uco no rótulo e safra dos últimos três anos. Malbec genérico de Mendoza sem menção de região custa quase o mesmo e chega mais doce, mais mole e sem o frescor da altitude.
Dentro da faixa de R$ 50 a R$ 100, a garrafa de hoje é essa: argentina, Mendoza de altitude, Malbec puro, R$ 69 na origem mais barata. O que ela pede em troca é carne com crosta escura e gordura na mesa, e o hambúrguer de sexta chega com as duas.
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