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Vento do Pacífico, três meses de madeira usada, pimenta no nariz. R$ 45.
Em 2008, uma equipe do Australian Wine Research Institute isolou a rotundona, a molécula que dá o aroma de pimenta preta moída, e mostrou que ela é a mesma substância presente na pimenta do reino e no Syrah. É o único aroma de vinho que o leitor pode conferir na própria despensa, abrindo o pote de pimenta e cheirando ao lado da taça.
O endereço barato dela no Chile é o Valle de Colchagua, a duas horas de Santiago, e a parte que interessa fica na ponta oeste, perto de Paredones e Marchigüe.
A brisa fria do Pacífico entra por uma abertura na cordilheira da costa e chega ao vinhedo no meio da tarde. A uva amadurece no calor da manhã e desacelera no vento frio, e a rotundona sobrevive à maturação em vez de evaporar.
Vinhedo de vale quente demais entrega outra coisa. Sem o vento, o Syrah chileno vira geleia de ameixa com álcool alto, a pimenta some e o vinho fica doce na boca, o oposto do que a linguiça pede.
O tanino do Syrah é a segunda peça, e ele chega em dose média. A casca da uva é grossa e escura, mas o tanino dela é mais macio que o de um Cabernet, e limpa a gordura da boca sem deixar aquela sensação de lixa no céu da boca.
A vinificação nessa faixa de preço é curta e direta. Quinze a vinte dias de contato com a casca, fermentação em aço e no máximo quatro meses de madeira usada, o suficiente pra arredondar sem colocar baunilha no meio da fumaça.
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O carvalho novo estraga a garrafa de churrasco: seis meses ou mais em madeira nova entrega coco e serragem, e a pimenta que faz o serviço na grelha desaparece.
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Duas palavras no rótulo separam a garrafa certa da errada. Costa e Andes indicam vinhedo de clima puxado; se a contra-etiqueta só disser Valle Central sem menção de vento, o vinho tende ao doce e some no defumado.
Os números da garrafa de hoje ficam assim:
| Preço no supermercado de bairro | R$ 69 | | Preço no e-commerce | R$ 45 | | Álcool declarado | 13,5% | | Madeira | 3 meses, carvalho de segundo uso |
São vinte e quatro reais de diferença na mesma garrafa e no mesmo lote, apurado em 21/08, e quem compra a caixa antes do fim de semana fica com eles no bolso.
Na taça, o rótulo de hoje chega roxo escuro com borda violeta, com amora, ameixa preta, pimenta moída e um fundo de azeitona e ervas secas, corpo médio, tanino médio e acidez que aparece no meio do gole.
Na prateleira, procure Colchagua Costa, Marchigüe ou Paredones no rótulo, e desconfie de contra-etiqueta que promete doze meses de barrica nessa faixa de preço. Madeira barata em vinho barato é serragem, não vinho.
Dentro da faixa até R$ 50, a garrafa de hoje é essa: chilena, Colchagua Costa, Syrah com três meses de madeira usada, R$ 45 na origem mais barata. O que ela pede em troca é gordura e fumaça na mesa, e a linguiça na brasa chega com as duas.
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