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Noite quente do leste de Mendoza, casca fina, fruta madura. R$ 42.
A Bonarda é a segunda uva mais plantada da Argentina, com cerca de 18 mil hectares no país, atrás só da Malbec, e mesmo assim aparece em uma fração mínima dos rótulos que chegam ao Brasil. É uva de produtor, não de campanha de marketing, e a falta de fama aparece no preço da gôndola.
O território dela fica no leste de Mendoza, nos departamentos de Rivadavia, Junín e San Martín, a uns seiscentos metros de altitude. É terra plana, quente e seca, irrigada por canais que descem da cordilheira.
A Bonarda amadurece tarde, e a colheita acontece semanas depois da Malbec. O calor do leste de Mendoza dá o tempo que ela precisa, e a uva chega ao tanque com açúcar completo e casca ainda fina.
Vinhedo de altitude alta entrega o oposto. Noite muito fria atrasa a maturação, a Bonarda fica verde no talo e o vinho chega com um fundo vegetal que não encontra lugar nenhum no arroz de açafrão.
A casca fina é a peça que muda o gole. Menos casca por volume de suco significa menos tanino extraído na fermentação, e o vinho sai com cor densa e com uma boca macia que não seca a língua.
A vinificação nessa faixa de preço é curta e morna. Maceração de poucos dias, fermentação entre vinte e cinco e vinte e oito graus, sem passagem por madeira, e engarrafamento ainda no mesmo ano da colheita.
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A Bonarda de barrica cara erra o alvo desta mesa: a madeira coloca tosta e baunilha em cima do colorau, e a fruta que acompanhava o tempero desaparece atrás da serragem doce.
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Duas informações na contra-etiqueta separam a garrafa certa da errada. Bonarda como uva única e a safra recente resolvem a compra; corte de Bonarda com Cabernet devolve o tanino que a gente veio evitar.
Os números da garrafa de hoje ficam assim:
| Preço no supermercado de bairro | R$ 61 | | Preço no e-commerce | R$ 42 | | Álcool declarado | 13,5% | | Maceração antes da prensagem | 5 dias |
São dezenove reais de diferença na mesma garrafa e na mesma safra, apurado em 23/08, e quem monta a caixa de seis leva o troco de duas garrafas.
Na taça, o rótulo de hoje chega roxo escuro de borda violeta, com ameixa preta, amora, um fundo de canela e terra molhada, corpo médio, acidez média pra alta e um tanino curto que aparece só no fim e vai embora rápido.
Na prateleira, procure Bonarda de safra recente e desconfie de tinto argentino nessa faixa que anuncia reserva ou estágio em carvalho. Carvalho barato em tinto barato é pó de madeira, não tempo de guarda.
Dentro da faixa até R$ 50, a garrafa de hoje é essa: argentina, leste de Mendoza, Bonarda sem madeira e safra recente, R$ 42 na origem mais barata. O que ela pede em troca é gordura e tempero na mesa, e a galinhada chega com os dois em cima do fogo.
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