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ED 019

Lambrusco de R$ 68 pra feijão tropeiro

Faixa de R$ 50 a R$ 100: o Lambrusco Grasparossa de Modena chega tinto e seco, e a borbulha raspa a gordura do torresmo, servido a 12 graus.

O feijão tropeiro na travessa de barro, o torresmo por cima e a garrafa de Lambrusco no balde.

O tropeiro na travessa e a taça ao lado

 

Faixa de hoje: de R$ 50 a R$ 100. O feijão tropeiro chega na travessa de barro com o torresmo estalando por cima, a farinha ainda quente e as rodelas grossas de linguiça soltando uma gordura alaranjada que escorre pro fundo.

A garfada junta quatro coisas de uma vez: o feijão cozido inteiro, a farinha de milho torrada na banha, o torresmo crocante e salgado, e o ovo mexido que amarra o resto na colher.

É prato de gordura declarada, e ela trabalha em duas frentes. Cada garfada deposita uma camada na língua, e a farinha torrada seca o céu da boca por cima dessa camada, o que deixa a boca pedindo líquido antes da metade do prato.

A escolha automática é a cerveja gelada, e ela acerta o diagnóstico. Gás e amargor limpam gordura, e é exatamente por isso que ela funciona no primeiro prato e cansa no segundo, quando o lúpulo se soma ao sal do torresmo e a farofa fica áspera.

Na faixa de R$ 50 a R$ 100, o reflexo é pegar o tinto mais encorpado da prateleira. Cabernet ou Malbec de tanino firme encontra o sal do torresmo, o tanino endurece na boca e sobra um travo seco em cima de um prato que já era seco de farinha.

O caminho oposto erra pelo outro lado. Branco leve e sem estrutura desaparece embaixo da banha na segunda garfada, e a mesa fica com a impressão de que vinho não combina com comida de tropeiro.

O tropeiro pede duas coisas ao mesmo tempo: alguma coisa que raspe a gordura entre uma garfada e outra, e fruta madura o bastante pra não brigar com o sal do torresmo e da linguiça.

Gás carbônico faz a raspagem melhor que qualquer tanino, e é aí que a prateleira brasileira trava. Espumante quase sempre significa branco ou rosé, e branco não tem fruta escura pra encarar linguiça calabresa.

Existe um tinto seco com borbulha que resolve as duas frentes por sessenta e oito reais, e ele vem de uma província italiana de cozinha tão gorda e salgada quanto a nossa. De onde ele vem, por que a palavra secco decide a compra e como chegar aos doze graus sem termômetro vêm logo abaixo. A garrafa vem primeiro.

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I  A Garrafa de Hoje

Grasparossa, as colinas de Modena e a borbulha seca

Colinas de Modena, tinto seco com gás. R$ 68.

Lambrusco não é uma uva só: é uma família de mais de dez variedades da Emília-Romanha, e a que interessa nesta mesa é a Grasparossa, cultivada nas colinas de Castelvetro, na província de Modena. O nome vem do engaço vermelho do cacho, que fica escuro na maturação.

A confusão com Lambrusco tem data. Nos anos oitenta chegou aqui a versão doce de garrafa grande e preço baixo, e o rótulo virou sinônimo de refrigerante alcoólico.

A versão que interessa é outra. Grasparossa di Castelvetro é a mais estruturada da família, com cor rubi profunda, espuma rosada na borda da taça e tanino presente, coisa que as outras Lambruscas não entregam.

O terreno explica a diferença. As vinhas ficam nas encostas de argila e calcário ao sul de Modena, entre cento e cinquenta e quinhentos metros de altitude, e a colheita acontece tarde, no fim de setembro.

A altitude dá amplitude térmica, e a amplitude dá as duas coisas juntas na mesma uva. Dia quente amadurece a fruta escura, a noite fria segura a acidez, e o vinho chega ao tanque com cereja madura e nervo ao mesmo tempo.

A borbulha nasce em autoclave, no método Charmat, que os italianos chamam de Martinotti. A segunda fermentação acontece num tanque de aço pressurizado, dura poucas semanas e preserva a fruta, ao contrário do método tradicional, que troca fruta por pão e levedura.

Uma palavra da contra-etiqueta separa a garrafa certa da errada, e ela decide a compra sozinha: secco entrega até quinze gramas de açúcar por litro, amabile passa dos trinta e devolve o Lambrusco adocicado que assombra a memória de quem provou nos anos oitenta.

Os números da garrafa de hoje ficam assim:

Preço no supermercado de bairroR$ 89
Preço no e-commerceR$ 68
Álcool declarado11%
Açúcar residual (secco)até 15 g/l

São vinte e um reais de diferença na mesma garrafa e na mesma safra, apurado em 25/08, e a caixa de seis paga uma garrafa e meia de troco.

Na taça, o rótulo de hoje chega rubi escuro com espuma rosada que sobe e desce em segundos, com amora, cereja preta e um fundo de violeta, tanino leve, acidez alta e um final seco e curto que limpa a boca e sai de cena.

Na prateleira, procure Grasparossa di Castelvetro com a palavra secco e desconfie de Lambrusco sem indicação de uva na frente do rótulo. Lambrusco genérico de garrafa grande costuma ser corte doce feito pra volume, não pra mesa.

Dentro da faixa de R$ 50 a R$ 100, a garrafa de hoje é essa: italiana, colinas de Modena, Grasparossa seco de safra recente, R$ 68 na origem mais barata. O que ela pede em troca é gordura e sal na travessa, e o feijão tropeiro chega com os dois transbordando.

 
 

II  Com o Que Combina

Torresmo, linguiça e a farinha que seca a boca

Travessa de tropeiro muda o alvo da escolha: aqui o vinho raspa a gordura da boca e devolve fruta escura no lugar do sal.

O torresmo é o primeiro trabalho da garrafa, e é o mais difícil dos quatro. Ele chega com a pele crocante e uma camada de banha logo abaixo, que gruda no céu da boca e apaga o sabor da garfada seguinte.

A borbulha faz a raspagem que o tanino não faz. O gás carbônico levanta a gordura da superfície da língua, a acidez alta leva embora o que sobrou, e a garfada seguinte encontra a boca limpa, como se fosse a primeira do prato.

Tanino tenta o mesmo serviço e cobra caro. Ele também limpa gordura, mas trava na proteína salgada do torresmo e devolve uma sensação de lixa que empurra o tinto encorpado pra fora da mesa.

O feijão tropeiro pede gás e fruta madura: a borbulha raspa a banha do torresmo e a cereja preta segura o sal da linguiça sem endurecer na boca.

A linguiça calabresa é o segundo trabalho, e ela é mais barulhenta do que o torresmo. Traz sal, pimenta e defumado juntos, e um vinho de fruta tímida chega magro nessa disputa e some na segunda rodela.

A fruta escura da Grasparossa segura o embate. Amora e cereja preta ficam na mesma altura do defumado, e a violeta do fundo aparece justamente quando a pimenta baixa, o que faz o gole terminar mais longo do que começou.

A farinha de milho torrada é a peça que ninguém considera na hora de escolher, e é a que estraga mais rápido a mesa. Ela absorve saliva, seca o céu da boca e transforma qualquer tanino firme numa aspereza dupla, farinha por baixo e vinho por cima.

O tanino leve do Lambrusco mantém a farofa no lugar. Sem nada que agarre, o gás devolve umidade à boca, e a farinha volta a ter gosto de milho torrado em vez de gosto de pó.

A alternativa na mesma faixa é o Bonarda argentino jovem, R$ 74 no supermercado e R$ 55 no e-commerce, apurado em 25/08. Tem fruta parecida e nenhuma borbulha, e cabe melhor quando o tropeiro vem com pouca farinha e muito feijão de caldo.

O que erra dentro da mesma faixa é o Cabernet Sauvignon com passagem por carvalho. Ele chega com tanino firme e tosta em cima de um prato salgado e seco, e a boca sai áspera antes de a travessa chegar na metade.

A mesma garrafa cobre o resto da mesa. Pizza de calabresa, feijoada de sábado, torresmo de boteco e linguiça na grelha giram todos em torno de gordura de porco, sal e defumado, e nenhum deles pede outro vinho.

O critério cabe numa linha e vale pra qualquer prato de porco frito: quanto mais banha e sal no prato, mais gás na taça e menos tanino na garrafa.

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III  Sem Cerimônia

Doze graus e a rolha que trava no polegar

Antes de servir: Lambrusco na porta da geladeira marca perto de seis graus, e nessa temperatura a amora fecha e sobra só o gás. Vinte minutos fora, na bancada, sobem pra faixa dos doze.

O atalho: balde com metade de gelo, metade de água e duas colheres de sal grosso. A garrafa em temperatura ambiente mergulhada até o ombro chega aos doze graus em quatro minutos, e quem passar de sete minutos ali dentro tira a fruta junto com o calor.

Na abertura: segure a rolha com o polegar e gire a garrafa, nunca a rolha. O gás empurra, o polegar trava, e a saída sai num sopro curto em vez de estouro, o que preserva a borbulha que vai fazer o trabalho na mesa.

Lambrusco gelado demais é o erro mais comum da casa. Abaixo de oito graus a fruta escura desaparece, o vinho vira um líquido ácido com gás e a mesa conclui que o problema era o rótulo, quando o problema era a geladeira.

A taça também decide. Flute de espumante branco fecha o aroma da fruta escura e serve pra pouco aqui, e a taça comum de tinto abre a amora e a violeta sem matar a borbulha, desde que seja enchida até um terço.

A garrafa não fica na mesa do lado de fora. Numa noite quente o vinho servido a doze passa dos vinte em quinze minutos, e a borbulha que raspava a banha do torresmo vira uma sensação morna e doce na boca.

O caminho é servir e devolver. Cada rodada manda a garrafa de volta pro balde ou pra geladeira, e a última garfada de tropeiro encontra o vinho na mesma temperatura da primeira.

A conta de quantidade resolve antes de a travessa ir pra mesa. Uma garrafa de setecentos e cinquenta mililitros rende seis taças, e uma mesa de quatro pessoas com tropeiro, couve e arroz pede duas garrafas.

A sobra tem destino, e ele não é a pia. Rolha de espumante de volta com a presilha, ou tampa de vedação, e garrafa em pé na geladeira: a Grasparossa aguenta dois dias com boa parte do gás, e no dia seguinte vai bem na pizza de calabresa que ninguém planejou.

A mesa fica assim: a travessa de barro no centro, o torresmo estalando na colher, a garrafa saindo do balde com a espuma subindo na taça e ninguém perguntando o nome da uva.

"O último feijão tropeiro da sua casa recebeu a cerveja de sempre ou um tinto com borbulha servido a doze graus?"

 
 
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Segundo a edição, até quantos gramas de açúcar por litro tem o Lambrusco Grasparossa quando o rótulo traz a palavra secco?

AAté 15 gramas por litro
BAté 30 gramas por litro
CAcima de 30 gramas por litro
DZero grama, sem açúcar residual

Resultado da última edição: 0% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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