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ED 021

Alentejano de R$ 74 pra pernil assado

Faixa de R$ 50 a R$ 100: o tinto alentejano de Aragonez e Trincadeira encara a gordura do pernil e o sal da farofa, servido a 16 graus.

O pernil assado na travessa, a farofa ao lado e a taça de tinto alentejano servida.

O pernil na travessa e a taça ao lado

 

Faixa de hoje: de R$ 50 a R$ 100. O pernil sai do forno depois de quatro horas em fogo baixo, com a pele estufada e dourada, a gordura pingando na travessa e a carne soltando do osso quando o garfo encosta.

Ao lado dele vem a farofa de cebola frita na própria gordura do assado, salgada de verdade, e as rodelas de laranja que a família serve há três gerações sem saber direito por quê.

É prato de gordura longa e sal alto ao mesmo tempo, e essa combinação derruba a maioria das garrafas da prateleira. A gordura assada cobre a língua e não sai sozinha, e o sal da farofa chega por cima aumentando tudo o que estiver na taça, inclusive o defeito.

A escolha automática da mesa de domingo é a cerveja gelada, e ela funciona pelo amargor e pela temperatura, não pelo sabor. Limpa a boca nas duas primeiras fatias e enche o estômago na terceira, quando o assado ainda tem metade da travessa pra entregar.

Na faixa de R$ 50 a R$ 100, o reflexo de quem escolhe vinho é pegar o tinto mais leve da prateleira, com medo de brigar com a carne branca. Tinto leve e sem estrutura afunda embaixo da gordura antes da segunda garfada, e a taça vira água colorida no meio do almoço.

O caminho oposto erra pelo outro lado. Tinto novo de tanino agressivo encontra a crosta salgada da pele e o sal empurra o tanino pra frente, a boca fica áspera e a família decide que o problema era o porco.

O pernil pede duas coisas ao mesmo tempo: fruta madura o bastante pra atravessar a camada de gordura, e tanino de textura macia, que segure o assado sem endurecer quando o sal da farofa entra.

Existe um tinto que resolve as duas frentes por setenta e quatro reais, feito de duas uvas na planície mais quente de Portugal, a duas horas de carro de Lisboa. De onde ele vem, por que a dupla Aragonez e Trincadeira funciona como par e como chegar aos dezesseis graus sem termômetro vêm logo abaixo. A garrafa vem primeiro.

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I  A Garrafa de Hoje

Aragonez e Trincadeira na planície de Portugal

Alentejo, tinto de fruta madura. R$ 74.

Aragonez não é uma uva portuguesa: é a Tempranillo espanhola, a mesma de Rioja, que atravessou a fronteira e ganhou dois nomes dentro do próprio país, Tinta Roriz no Douro e Aragonez no Alentejo. Uma uva, três nomes, e a etiqueta raramente explica.

A confusão de nome esconde o que interessa no balcão. Quem nunca ouviu falar de Aragonez passa direto pela garrafa, e quem reconhece Tempranillo espera um Rioja com baunilha de barrica e recebe uma coisa mais carnuda e mais quente.

A diferença nasce no calor. No Alentejo a uva amadurece com sol de sobra, chega com açúcar alto e acidez baixa, e o vinho sai de fruta madura, cor profunda e tanino redondo, sem a aresta que o clima frio deixa.

A Trincadeira entra pra consertar exatamente o que falta. Ela é nativa, de casca fina e maturação irregular, traz acidez mais alta, pimenta e um toque de ervas secas, e é o que impede o corte de virar geleia de fruta cozida.

O par explica o preço. Aragonez dá o corpo e a doçura de fruta, Trincadeira dá o nervo e o tempero, e a mistura das duas entrega em setenta e quatro reais um equilíbrio que uma casta sozinha só alcança em garrafa muito mais cara.

O terreno faz o resto do trabalho. As vinhas ficam entre Reguengos de Monsaraz, Borba, Redondo e Vidigueira, em solo de xisto e granito sobre planície aberta, com verões que passam dos quarenta graus e chuva concentrada no inverno.

Os números da garrafa de hoje ficam assim:

Preço no supermercado de bairroR$ 96
Preço no e-commerceR$ 74
Álcool declarado14%
Acidez total5,4 g/l

São vinte e dois reais de diferença na mesma garrafa e na mesma safra, apurado em 27/08, e a caixa de seis paga o pernil do almoço.

Na taça, o rótulo de hoje chega rubi escuro e opaco no centro, com ameixa preta, cereja madura e um fundo de pimenta e ervas secas, tanino macio de textura arredondada, acidez média e um final quente de fruta que segura o sal da mesa.

Na prateleira, procure Aragonez e Trincadeira listadas no verso do rótulo e aceite tanto DOC Alentejo quanto Vinho Regional Alentejano, porque a segunda categoria é mais larga de regra e costuma custar menos pela mesma qualidade de fruta.

Dentro da faixa de R$ 50 a R$ 100, a garrafa de hoje é essa: portuguesa, planície do sul, corte de Aragonez com Trincadeira, R$ 74 na origem mais barata. O que ela pede em troca é gordura assada e sal no prato, e o pernil de domingo chega com os dois na mesma travessa.

 
 

II  Com o Que Combina

A gordura do pernil e o sal da farofa

Almoço de pernil muda o alvo da escolha: aqui o vinho encara a gordura do assado primeiro e o sal da farofa depois.

A gordura do pernil é o primeiro trabalho da garrafa, e é o mais longo dos quatro. Ela derrete durante horas dentro da carne, cobre a língua com uma camada que não sai entre uma garfada e outra, e apaga qualquer vinho de fruta discreta na segunda fatia.

A fruta madura do alentejano resolve por volume. Ameixa e cereja em concentração alta atravessam a camada de gordura e chegam do outro lado ainda reconhecíveis, e a boca fica limpa a tempo da garfada seguinte.

O tanino macio é o que evita o acidente. Ele existe em quantidade suficiente pra raspar a gordura, mas com textura arredondada, então não agarra na fibra do assado nem seca o céu da boca no meio do prato.

O pernil pede fruta madura pra atravessar a gordura e tanino macio pro sal da farofa: sobrou tanino, o sal transforma a taça em lixa; faltou fruta, a gordura apaga o vinho na segunda fatia.

O sal da farofa é o segundo trabalho, e ele muda o eixo do problema. Cebola frita na gordura do assado com sal grosso por cima empurra pra frente tudo o que a taça tiver de áspero, e é por causa dele que tinto jovem e tânico fracassa aqui.

Tanino demais quebra o acordo. O sal aumenta a percepção de adstringência, o tanino firme dobra de tamanho na boca e o almoço termina com todo mundo bebendo água, e a garrafa aberta parada no meio da mesa.

A crosta da pele é a peça que ninguém considera na escolha, e é a que muda mais o resultado. Ela vem seca, salgada e tostada, com sabor de assado que insiste, e pede fruta doce por perto pra não ficar amarga sozinha.

A pimenta e as ervas secas da Trincadeira encontram exatamente o alecrim e o alho que foram pro tempero na véspera, e o gole termina parecendo continuação do prato, não uma coisa servida ao lado.

A alternativa na mesma faixa é o tinto do Douro de entrada, R$ 89 no supermercado e R$ 68 no e-commerce, apurado em 27/08. Tem a mesma fruta escura com um pouco mais de tanino e de acidez, e cabe melhor quando o pernil vem com farofa mais seca e menos gordura na travessa.

O que erra dentro da mesma faixa é o Pinot Noir de entrada, leve e delicado. Ele tem fruta vermelha discreta e corpo baixo, some embaixo da gordura assada na primeira fatia, e a mesa acha que gastou à toa.

A mesma garrafa cobre o resto do almoço. Leitão, costelinha de porco na cerveja, joelho assado, tender de Natal e lombo com abacaxi giram todos em torno de gordura assada, sal e um toque doce, e nenhum deles pede outro vinho.

O critério cabe numa linha e vale pra qualquer assado de forno: quanto mais gordura e sal no prato, mais fruta madura na taça e mais macio o tanino da garrafa.

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III  Sem Cerimônia

Dezesseis graus antes de o assado sair do forno

Antes de servir: tinto alentejano guardado na cozinha em dia de forno ligado marca perto de vinte e oito graus, e nessa temperatura os catorze por cento de álcool sobem no nariz e apagam a ameixa. Quarenta minutos na geladeira comum baixam pra faixa dos dezesseis.

O atalho: balde com metade de gelo, metade de água e duas colheres de sal grosso. A garrafa em temperatura ambiente mergulhada até o ombro chega aos dezesseis graus em cinco minutos, e quem passar de oito minutos ali dentro fecha a fruta junto com o calor.

Na taça: encha até um terço e gire por dez segundos antes do primeiro gole. O contato com o ar abre a ameixa e solta a pimenta da Trincadeira, e o álcool para de aparecer sozinho na entrada do nariz.

Tinto morno é o erro mais comum da casa, e em garrafa de catorze por cento ele custa mais caro. Acima de vinte graus o álcool domina o aroma, a fruta madura vira doce enjoativo e o assado leva a culpa por um problema que era da temperatura.

A taça também decide. Copo pequeno de boteco fecha o aroma e entrega quase nada aqui, e a taça comum de tinto, de bojo médio, abre a fruta escura e mantém a pimenta viva até o fim da travessa.

A garrafa não fica na mesa em almoço de domingo. Com o forno ligado e a casa cheia, o vinho servido a dezesseis passa dos vinte e três em vinte minutos, e a fruta que segurava a gordura vira uma sensação morna e alcoólica.

O caminho é servir e devolver. Cada rodada manda a garrafa de volta pro balde, e a última fatia de pernil encontra o vinho na mesma temperatura da primeira.

A conta de quantidade resolve antes de a travessa ir pra mesa. Uma garrafa de setecentos e cinquenta mililitros rende cinco taças de tinto, e um almoço de oito pessoas com pernil, farofa e arroz pede quatro garrafas pra não ter corrida ao mercado no meio da tarde.

A sobra tem destino, e ele não é a pia. Rolha de volta pelo lado limpo ou tampa de vedação, garrafa em pé na geladeira: o alentejano aguenta três dias com a fruta inteira, e no dia seguinte vai bem no sanduíche de pernil com a carne desfiada.

A mesa fica assim: a travessa no centro com a pele estalando, a farofa passando de mão em mão, a taça a dezesseis graus e ninguém perguntando o nome das uvas.

"O último pernil assado da sua casa recebeu a cerveja de sempre ou um tinto de fruta madura servido a dezesseis graus?"

 
 
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CTempranillo
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