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ED 025

Ribera del Duero pra carne de panela

Faixa acima de R$ 100: o Tempranillo de planalto a 800 metros traz tanino de barrica pro molho reduzido, servido a 17 graus.

A panela de ferro com a carne desmanchando, a polenta cremosa ao lado e a taça de Ribera del Duero servida.

A carne de panela e a taça de Ribera

 

Faixa de hoje: acima de R$ 100. A panela de ferro está no fogo baixo desde as quatro da tarde, os cubos de acém selados um a um, a cebola derretida no fundo, e o que começou como caldo ralo virou molho escuro e brilhante por volta das sete da noite.

Do lado, a polenta cremosa acabou de sair da colher de pau, ainda soltando vapor, e a travessa vai pra mesa com a carne desmanchando ao toque do garfo.

É comida de fibra longa e molho concentrado ao mesmo tempo, e a combinação exige da taça exatamente o contrário do que exigia o peixe da semana de fritura. A carne cozida três horas solta gelatina, a gelatina engrossa o molho, e o molho reduzido chega na boca com sal, gordura e umami somados num bocado só.

O reflexo da mesa é abrir o tinto mais macio da prateleira, aquele de fruta madura e tanino quase invisível, porque parece que carne desmanchando pede vinho desmanchando junto. O resultado é o vinho sumir: o molho reduzido cobre a fruta e a taça vira suco morno na terceira garfada.

Na faixa acima de R$ 100, o erro caro tem outro formato. É o tinto muito extraído e ainda jovem, com tanino verde e adstringente, que encontra a gelatina da carne e sai raspando a boca, deixando a sensação de lixa em vez de conforto.

O prato pede três coisas ao mesmo tempo: tanino de textura fina e madura, que se agarre à gelatina em vez de brigar com ela; acidez de sobra, pra atravessar o molho reduzido e devolver a boca pronta pra próxima garfada; e um registro de barrica de verdade, porque a baunilha e o tostado da madeira encontram a cebola caramelizada e a polenta como se tivessem sido cozidos juntos.

Existe um tinto que entrega as três, feito quase só de uma uva, num planalto castelhano tão alto e tão seco que a temperatura despenca vinte graus entre o meio-dia e a madrugada. De onde ele vem, por que a altitude aparece no tanino e como acertar os dezessete graus sem termômetro vêm logo abaixo. A garrafa vem primeiro.

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I  A Garrafa de Hoje

Vinte graus de queda entre o dia e a noite

Ribera del Duero, Tempranillo de barrica. R$ 149.

No planalto do Duero a videira vive numa faixa estreita entre 750 e 900 metros de altitude, e a diferença entre a máxima da tarde e a mínima da madrugada passa de vinte graus no verão. É essa queda noturna que segura a acidez enquanto a uva termina de amadurecer no sol da tarde.

A região fica na Meseta Norte espanhola, uma planície alta cortada pelo rio Duero, com solos de calcário, marga e cascalho e um clima continental duro: geada tardia em maio, verão de trinta e cinco graus e menos de quatrocentos e cinquenta milímetros de chuva por ano.

A uva local é a Tempranillo, chamada ali de Tinta del País, e ela responde à altitude engrossando a casca. Casca mais grossa significa mais cor, mais tanino e mais estrutura na mesma uva que, plantada no calor da planície, dá vinho largo e mole.

Os números da garrafa de hoje ficam assim:

Preço na loja de vinhosR$ 198
Preço no e-commerceR$ 149
Álcool declarado14%
Barrica de carvalho14 meses

São quarenta e nove reais de diferença na mesma garrafa e na mesma safra, apurado em 31/08.

O envelhecimento em barrica não é enfeite de rótulo aqui. Quatorze meses em carvalho, com parte francesa e parte americana, arredondam o tanino grosso da casca e acrescentam o tostado, a baunilha e o registro de especiaria que o molho reduzido vai buscar depois.

Na taça, o rótulo de hoje chega rubi profundo de borda violeta, com ameixa preta, cereja madura, alcaçuz e um fundo de couro, tabaco e café torrado, tanino firme e de textura aveludada, acidez viva por baixo do corpo e final longo com gosto de terra seca.

Na prateleira, procure Ribera del Duero escrito na frente do rótulo, porque a denominação exige no mínimo setenta e cinco por cento de Tempranillo, e olhe a contra-etiqueta atrás da palavra Crianza, que garante ao menos doze meses de barrica. Safra de quatro a oito anos é o ponto: com menos de três o tanino ainda morde, e garrafas bem guardadas seguem inteiras por quinze anos.

Dentro da faixa acima de R$ 100, a garrafa de hoje é essa: espanhola, planalto castelhano a 800 metros, Tempranillo com quatorze meses de carvalho, R$ 149 na origem mais barata. O que ela pede em troca é gordura longa e molho concentrado no prato, e a carne de panela com polenta chega com os dois na mesma travessa.

 
 

II  Com o Que Combina

O molho reduzido e a polenta cremosa

Carne de panela muda o trabalho da taça: aqui o vinho encara a gelatina do cozido longo primeiro e a doçura amanteigada da polenta depois.

A gelatina é o primeiro serviço da garrafa, e é o que separa o tinto certo do tinto caro. Três horas de fogo baixo desmancham o colágeno do acém em gelatina, e a gelatina cobre a língua com uma textura densa que só o tanino consegue cortar.

O tanino de textura fina é o que resolve. A proteína do tanino se agarra à gelatina do molho e as duas se derrubam juntas, deixando a boca limpa e macia; é a mesma reação que faz um Tempranillo jovem parecer agressivo sozinho e civilizado ao lado da panela.

A acidez faz o segundo trabalho, e ela é a parte que ninguém procura no rótulo. O molho reduzido concentra sal e açúcar da cebola no mesmo bocado, e vinho sem acidez ao lado dele parece pesado logo na segunda garfada; a queda de temperatura do planalto é o que mantém essa acidez viva mesmo com quatorze graus de álcool.

A carne de panela pede tanino maduro pra gelatina e acidez pro molho reduzido: faltou tanino, o cozido apaga o vinho na terceira garfada; faltou acidez, a taça fica pesada antes da metade da travessa.

A polenta resolve a terceira frente, e é onde a barrica ganha função. Fubá cozido com manteiga e queijo entrega doçura láctea e cremosidade, e o tostado do carvalho encontra essa doçura como o pão torrado encontra o café, sem que nenhum dos dois precise gritar.

O louro e o alho da panela são a peça que quebra a maioria dos tintos frutados e ninguém considera na hora de escolher. Os dois deixam um amargor herbal de fundo, e vinho de fruta doce e sem estrutura encontra esse amargor e devolve gosto de xarope na boca.

Na garrafa de hoje o louro passa ileso. O registro de couro, tabaco e terra seca do Tempranillo com barrica conversa com o amargor herbal em vez de disputar com ele, e o final longo devolve a boca pronta pro próximo pedaço.

A alternativa na mesma faixa é o Chianti Classico Riserva, R$ 172 na loja e R$ 134 no e-commerce, apurado em 31/08. Tem acidez ainda mais alta com tanino mais seco e menos barrica, e cabe melhor quando a carne vai com molho de tomate.

O que erra dentro da mesma faixa é o Pinot Noir delicado de clima frio. Ele tem tanino leve, corpo médio e aroma sutil, encontra o molho reduzido e some por completo, e a mesa termina achando que gastou dinheiro à toa.

A mesma garrafa cobre o resto do repertório de panela: costela desfiada, ossobuco, rabada com agrião, cupim assado lento e feijoada de domingo giram todos em torno de gelatina, sal e cozimento longo.

O critério cabe numa linha e vale pra qualquer cozido: quanto mais tempo a carne passa no fogo baixo, mais tanino maduro e mais barrica a taça aguenta ao lado.

Quem banca a edição de hoje

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III  Sem Cerimônia

Dezessete graus e a panela ainda no fogo

Antes de servir: tinto guardado no armário da cozinha em setembro marca perto de vinte e três graus, e nessa temperatura o álcool sobe na frente, o tanino parece áspero e a fruta some. Quarenta minutos na geladeira comum baixam a garrafa pra faixa dos dezessete.

O atalho: balde com metade de gelo, metade de água e duas colheres de sal grosso. A garrafa mergulhada até o ombro chega aos dezessete graus em quatro minutos, e quem esquecer ali dentro por dez fecha o tostado e a ameixa junto com o frio.

Na taça: encha até um terço e gire por meio minuto antes do primeiro gole. Tinto de quatorze meses de barrica precisa de ar pra abrir o couro e o alcaçuz, e a mesma taça meia hora depois entrega um vinho diferente do que chegou.

Tinto servido em temperatura ambiente é o erro mais comum da casa, e a expressão vem de adega europeia de dezesseis graus, não de cozinha brasileira com fogão ligado. Acima de vinte graus o álcool domina, o tanino endurece e a garrafa cara passa por vinho desequilibrado.

O outro erro é o oposto, e vem de quem se assustou com o primeiro. Tinto a dez graus, tratado como branco, fecha a fruta e faz o tanino parecer o dobro do que é, e o que sobra na boca é adstringência seca sem nenhum aroma por trás.

A garrafa não fica na mesa numa noite de panela. Com o fogo baixo ainda aceso e a travessa fumegando, o vinho servido a dezessete passa dos vinte e dois em vinte e cinco minutos, e o tanino que se agarrava à gelatina vira uma sensação quente e áspera.

O caminho é servir e devolver: cada rodada manda a garrafa de volta pro balde por dois minutos, e o último pedaço de carne encontra o vinho na mesma temperatura do primeiro.

A conta de quantidade resolve antes de a panela sair do fogo. Uma garrafa de setecentos e cinquenta mililitros rende cinco taças, e um jantar de quatro pessoas com carne desmanchando e polenta pede duas garrafas, porque cozido longo puxa a segunda rodada.

A sobra tem destino, e ele não é a pia. Rolha de volta pelo lado limpo ou tampa de vedação, garrafa em pé na geladeira: o Ribera aguenta quatro dias com o tanino firme, e o que sobrar depois disso vira o líquido de deglaçar a próxima panela, exatamente onde ele já sabe trabalhar.

A mesa fica assim: a panela de ferro no centro perdendo pedaços, a polenta baixando na travessa, a taça girando devagar e ninguém perguntando por que o vinho espanhol apareceu numa noite de comida de domingo.

"A última carne de panela da sua casa recebeu o tinto macio de sempre ou um Tempranillo de barrica servido a dezessete graus?"

 
 
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Segundo a edição, quantos graus a temperatura pode cair entre a tarde e a madrugada no planalto do Ribera del Duero durante o verão?

AMais de 10 graus
BMais de 15 graus
CMais de 20 graus
DMais de 30 graus

Resultado da última edição: 0% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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