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Ribera del Duero pra carne de panela
Faixa acima de R$ 100: o Tempranillo de planalto a 800 metros traz tanino de barrica pro molho reduzido, servido a 17 graus.
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A carne de panela e a taça de Ribera
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Faixa de hoje: acima de R$ 100. A panela de ferro está no fogo baixo desde as quatro da tarde, os cubos de acém selados um a um, a cebola derretida no fundo, e o que começou como caldo ralo virou molho escuro e brilhante por volta das sete da noite.
Do lado, a polenta cremosa acabou de sair da colher de pau, ainda soltando vapor, e a travessa vai pra mesa com a carne desmanchando ao toque do garfo.
É comida de fibra longa e molho concentrado ao mesmo tempo, e a combinação exige da taça exatamente o contrário do que exigia o peixe da semana de fritura. A carne cozida três horas solta gelatina, a gelatina engrossa o molho, e o molho reduzido chega na boca com sal, gordura e umami somados num bocado só.
O reflexo da mesa é abrir o tinto mais macio da prateleira, aquele de fruta madura e tanino quase invisível, porque parece que carne desmanchando pede vinho desmanchando junto. O resultado é o vinho sumir: o molho reduzido cobre a fruta e a taça vira suco morno na terceira garfada.
Na faixa acima de R$ 100, o erro caro tem outro formato. É o tinto muito extraído e ainda jovem, com tanino verde e adstringente, que encontra a gelatina da carne e sai raspando a boca, deixando a sensação de lixa em vez de conforto.
O prato pede três coisas ao mesmo tempo: tanino de textura fina e madura, que se agarre à gelatina em vez de brigar com ela; acidez de sobra, pra atravessar o molho reduzido e devolver a boca pronta pra próxima garfada; e um registro de barrica de verdade, porque a baunilha e o tostado da madeira encontram a cebola caramelizada e a polenta como se tivessem sido cozidos juntos.
Existe um tinto que entrega as três, feito quase só de uma uva, num planalto castelhano tão alto e tão seco que a temperatura despenca vinte graus entre o meio-dia e a madrugada. De onde ele vem, por que a altitude aparece no tanino e como acertar os dezessete graus sem termômetro vêm logo abaixo. A garrafa vem primeiro.
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I A Garrafa de Hoje
Vinte graus de queda entre o dia e a noite
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Ribera del Duero, Tempranillo de barrica. R$ 149.
No planalto do Duero a videira vive numa faixa estreita entre 750 e 900 metros de altitude, e a diferença entre a máxima da tarde e a mínima da madrugada passa de vinte graus no verão. É essa queda noturna que segura a acidez enquanto a uva termina de amadurecer no sol da tarde.
A região fica na Meseta Norte espanhola, uma planície alta cortada pelo rio Duero, com solos de calcário, marga e cascalho e um clima continental duro: geada tardia em maio, verão de trinta e cinco graus e menos de quatrocentos e cinquenta milímetros de chuva por ano.
A uva local é a Tempranillo, chamada ali de Tinta del País, e ela responde à altitude engrossando a casca. Casca mais grossa significa mais cor, mais tanino e mais estrutura na mesma uva que, plantada no calor da planície, dá vinho largo e mole.
Os números da garrafa de hoje ficam assim:
| Preço na loja de vinhos | R$ 198 |
| Preço no e-commerce | R$ 149 |
| Álcool declarado | 14% |
| Barrica de carvalho | 14 meses |
São quarenta e nove reais de diferença na mesma garrafa e na mesma safra, apurado em 31/08.
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O envelhecimento em barrica não é enfeite de rótulo aqui. Quatorze meses em carvalho, com parte francesa e parte americana, arredondam o tanino grosso da casca e acrescentam o tostado, a baunilha e o registro de especiaria que o molho reduzido vai buscar depois.
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Na taça, o rótulo de hoje chega rubi profundo de borda violeta, com ameixa preta, cereja madura, alcaçuz e um fundo de couro, tabaco e café torrado, tanino firme e de textura aveludada, acidez viva por baixo do corpo e final longo com gosto de terra seca.
Na prateleira, procure Ribera del Duero escrito na frente do rótulo, porque a denominação exige no mínimo setenta e cinco por cento de Tempranillo, e olhe a contra-etiqueta atrás da palavra Crianza, que garante ao menos doze meses de barrica. Safra de quatro a oito anos é o ponto: com menos de três o tanino ainda morde, e garrafas bem guardadas seguem inteiras por quinze anos.
Dentro da faixa acima de R$ 100, a garrafa de hoje é essa: espanhola, planalto castelhano a 800 metros, Tempranillo com quatorze meses de carvalho, R$ 149 na origem mais barata. O que ela pede em troca é gordura longa e molho concentrado no prato, e a carne de panela com polenta chega com os dois na mesma travessa.
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II Com o Que Combina
O molho reduzido e a polenta cremosa
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Carne de panela muda o trabalho da taça: aqui o vinho encara a gelatina do cozido longo primeiro e a doçura amanteigada da polenta depois.
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A gelatina é o primeiro serviço da garrafa, e é o que separa o tinto certo do tinto caro. Três horas de fogo baixo desmancham o colágeno do acém em gelatina, e a gelatina cobre a língua com uma textura densa que só o tanino consegue cortar.
O tanino de textura fina é o que resolve. A proteína do tanino se agarra à gelatina do molho e as duas se derrubam juntas, deixando a boca limpa e macia; é a mesma reação que faz um Tempranillo jovem parecer agressivo sozinho e civilizado ao lado da panela.
A acidez faz o segundo trabalho, e ela é a parte que ninguém procura no rótulo. O molho reduzido concentra sal e açúcar da cebola no mesmo bocado, e vinho sem acidez ao lado dele parece pesado logo na segunda garfada; a queda de temperatura do planalto é o que mantém essa acidez viva mesmo com quatorze graus de álcool.
A carne de panela pede tanino maduro pra gelatina e acidez pro molho reduzido: faltou tanino, o cozido apaga o vinho na terceira garfada; faltou acidez, a taça fica pesada antes da metade da travessa.
A polenta resolve a terceira frente, e é onde a barrica ganha função. Fubá cozido com manteiga e queijo entrega doçura láctea e cremosidade, e o tostado do carvalho encontra essa doçura como o pão torrado encontra o café, sem que nenhum dos dois precise gritar.
O louro e o alho da panela são a peça que quebra a maioria dos tintos frutados e ninguém considera na hora de escolher. Os dois deixam um amargor herbal de fundo, e vinho de fruta doce e sem estrutura encontra esse amargor e devolve gosto de xarope na boca.
Na garrafa de hoje o louro passa ileso. O registro de couro, tabaco e terra seca do Tempranillo com barrica conversa com o amargor herbal em vez de disputar com ele, e o final longo devolve a boca pronta pro próximo pedaço.
A alternativa na mesma faixa é o Chianti Classico Riserva, R$ 172 na loja e R$ 134 no e-commerce, apurado em 31/08. Tem acidez ainda mais alta com tanino mais seco e menos barrica, e cabe melhor quando a carne vai com molho de tomate.
O que erra dentro da mesma faixa é o Pinot Noir delicado de clima frio. Ele tem tanino leve, corpo médio e aroma sutil, encontra o molho reduzido e some por completo, e a mesa termina achando que gastou dinheiro à toa.
A mesma garrafa cobre o resto do repertório de panela: costela desfiada, ossobuco, rabada com agrião, cupim assado lento e feijoada de domingo giram todos em torno de gelatina, sal e cozimento longo.
O critério cabe numa linha e vale pra qualquer cozido: quanto mais tempo a carne passa no fogo baixo, mais tanino maduro e mais barrica a taça aguenta ao lado.
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