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Montepulciano de R$ 38 pro virado à paulista
Faixa até R$ 50: o Montepulciano d'Abruzzo tem fruta escura e tanino macio, a conta que segura o torresmo, a 16 graus.
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O virado à paulista e a taça de tinto
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O Montepulciano d'Abruzzo apareceu a R$ 38 e o Chianti Classico toscano a R$ 96 na mesma importadora brasileira, os dois preços conferidos em 14/09/2026. Os cinquenta e oito reais de distância vêm de três escolhas do produtor abruzês: parreira de alto rendimento em encosta larga e mecanizável, venda do vinho jovem sem os anos de barrica que a lei toscana cobra dos rótulos de topo, e engarrafamento em cooperativa grande, que dilui o custo por garrafa entre centenas de associados.
Enquanto a garrafa espera em pé no canto do balcão, o virado à paulista já ocupa quatro bocas do fogão. O feijão foi cozido no dia anterior com louro e alho, e depois engrossado com farinha de mandioca até virar o tutu que dá nome à travessa.
Do lado, a couve manteiga vai picada em tiras finas na faca, suada em banha com alho por três minutos, sem tampa, pra não perder o verde. A bisteca suína, salgada uma hora antes, sela na frigideira de ferro até formar crosta escura, e o torresmo de barriga frita duas vezes: fogo médio pra soltar a gordura, fogo alto pra estourar a pele. O ovo frito de gema mole fecha o prato.
A mesa costuma errar de dois jeitos com esse prato. Abre o tinto de tanino agressivo e alto álcool, e a boca já seca pela gordura do torresmo fica áspera de verdade, o vinho passa a parecer amargo e a couve some. Ou vai pro branco leve e gelado, que desaparece embaixo da banha e do feijão engrossado sem deixar rastro nenhum na garfada.
O virado pede três serviços do vinho ao mesmo tempo: tanino macio, aquele travo que aperta a gengiva sem arranhar, pra acompanhar a carne de porco sem somar aspereza; fruta escura e madura, de ameixa e amora, pra conversar com a crosta caramelada da bisteca; e acidez média alta, pra cortar a banha da couve e do torresmo antes da garfada seguinte.
Existe um tinto italiano que entrega os três por menos de R$ 50, feito de uma uva de casca grossa cultivada nas encostas entre os Apeninos e o Adriático. De onde ela vem, por que o tanino macio resolve o torresmo e como chegar aos dezesseis graus numa cozinha quente de fogão ligado vêm logo abaixo. A garrafa vem primeiro.
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I A Garrafa de Hoje
Uva da encosta abruzesa, casca grossa
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Montepulciano d'Abruzzo, tinto seco de fruta escura e tanino macio. R$ 38.
Montepulciano é o nome da uva, e o rótulo carrega uma confusão geográfica antiga: existe uma cidade chamada Montepulciano na Toscana, e o vinho dela, o Vino Nobile di Montepulciano, nasce de Sangiovese, não desta uva. O Montepulciano d'Abruzzo vem de outra região, trezentos quilômetros a leste, e a palavra d'Abruzzo no rótulo é o que separa um do outro na prateleira.
A taça entrega a origem antes de qualquer explicação: cor rubi quase opaca contra a luz, aroma de ameixa preta, amora, uma ponta de alcaçuz e tabaco doce, e final de fruta cozida.
O endereço explica o preço. Abruzzo fica no centro da Itália, entre o maciço dos Apeninos e o mar Adriático, e o vinhedo ocupa encostas largas e colinas baixas onde o trator entra. A condução tradicional em pergola abruzzese, o sistema de latada alta que espalha os ramos num teto de folhas, rende muita uva por hectare e derruba o custo do litro.
O segundo fator do preço é o tempo de guarda. A Denominazione di Origine Controllata Abruzzo, a lei italiana de origem controlada, libera o rótulo básico com poucos meses de descanso; só a versão Riserva pede envelhecimento mais longo. Vinho que sai rápido do produtor não paga barrica nova nem aluguel de galpão por anos.
O terceiro fator é a escala. Boa parte da produção abruzesa sai de cooperativas que reúnem centenas de famílias produtoras, e a compra de rolha, vidro e caixa nesse volume chega ao consumidor como desconto no rótulo.
Os números ficam assim:
| Preço na importadora | R$ 38 | | Preço no supermercado | R$ 59 | | Álcool declarado | 13% | | Acidez total declarada | 5,6 g/L | | Uva declarada | Montepulciano 100% |
São vinte e um reais separando a garrafa idêntica da mesma safra, apurado em 14/09/2026.
O Montepulciano abruzês carrega uma assinatura rara nesta faixa de preço: a fruta escura chega madura e doce no nariz, o corpo enche a boca como vinho caro, e o tanino passa macio pelas gengivas sem deixar aquela lixa que assusta quem bebe pouco tinto. |
Na taça, o rótulo de hoje chega rubi escuro com borda violeta, aroma de ameixa preta, amora, alcaçuz e um fundo de terra molhada, corpo médio, acidez média alta, tanino macio e final de fruta madura com leve amargor de casca de cacau.
Na prateleira, procure Montepulciano d'Abruzzo na contra-etiqueta, álcool entre 12,5% e 13,5% e safra dos últimos quatro anos. A palavra Riserva indica guarda maior e preço acima desta faixa; Colline Teramane, a sub-região mais estruturada do norte abruzês, também sobe de preço.
Até R$ 50, a garrafa de hoje é essa: abruzesa, encosta de pergola batida por vento de montanha e de mar, Montepulciano pura a 13% de álcool, R$ 38 na origem mais barata. O que ela pede em troca é carne de porco, gordura farta e comida de panela, e o virado à paulista entrega os três na mesma travessa.
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II Com o Que Combina
Torresmo, couve e tutu na mesma garfada
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Virado à paulista, o prato de tropeiro que juntou feijão engrossado com farinha, carne de porco e couve numa travessa só, muda o problema da taça: aqui o vinho encara a banha do torresmo e da bisteca e, na mesma garfada, o amargor verde da couve suada no alho. |
O tanino macio é o primeiro serviço da garrafa, e é ele que decide o jantar. Tanino é a substância da casca e da semente da uva que aperta a gengiva e dá aquela sensação de boca enxuta. Gordura de porco já reveste a boca, e tanino agressivo por cima vira aspereza dobrada. O Montepulciano tem tanino abundante, porém de textura arredondada, então ele encontra a banha, prende a gordura e devolve a boca limpa sem arranhar.
A fruta escura faz o segundo trabalho, e ela responde à bisteca. A crosta escura da carne selada na frigideira de ferro nasce da reação de Maillard, o escurecimento que o calor alto provoca entre açúcar e proteína, e traz notas tostadas e levemente adocicadas. Ameixa preta e amora maduras na taça conversam com esse tostado como a rodela de laranja que muita gente coloca ao lado do torresmo.
A acidez média alta fecha o terceiro serviço, e é aí que a compra costuma errar. Vinho de acidez baixa passa gorduroso depois do torresmo. Os 5,6 gramas de acidez por litro do Montepulciano funcionam como o limão espremido na couve: raspam a gordura e devolvem o apetite.
O virado à paulista pede tanino macio pra acompanhar a carne de porco e acidez média alta pra cortar a banha: com um tinto de tanino agressivo, a boca fica áspera e a couve some; com um branco leve, o vinho desaparece embaixo do tutu.
A alternativa na mesma faixa é o Nero d'Avola siciliano, R$ 44 na importadora e R$ 67 no supermercado, apurado em 14/09/2026. Ele traz fruta parecida com uma ponta de ervas secas e tanino um pouco mais firme, e cai melhor quando a linguiça calabresa domina a travessa, porque a pimenta da calabresa pede a estrutura extra.
O que erra nesta faixa é o Cabernet Sauvignon jovem de entrada ou o Sauvignon Blanc de supermercado. O primeiro chega com tanino verde e herbáceo que briga com a couve e deixa a bisteca metálica; o segundo tem acidez de sobra e corpo nenhum, e o tutu de feijão engole o gole inteiro.
O critério cabe numa linha e vale pra qualquer prato de carne de porco com feijão: quanto mais gordura na travessa, mais macio o tanino precisa ser, e quanto mais amargo verde no prato, mais madura a fruta na taça.
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