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ED 044
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Marselan de R$ 68 pra carne de sol com macaxeira

Faixa de R$ 50 a R$ 100: o Marselan da Campanha Gaúcha traz tanino macio pra carne de sol com macaxeira, servido a 16 graus.

A travessa de carne de sol com macaxeira ao lado da taça de Marselan.

A carne de sol desfiada e a taça de Marselan

 

A mesma garrafa de Marselan da Campanha Gaúcha estava a R$ 68 na loja virtual da própria vinícola e a R$ 112 na prateleira do empório de bairro, os dois preços conferidos em 18/09/2026. Os quarenta e quatro reais entre uma etiqueta e outra não entram no vidro. Pagam a caixa de seis comprada avulsa pelo empório, o frete rodoviário do sudoeste gaúcho até o Sudeste e a prateleira climatizada da loja. Mesmo lote, mesma safra impressa no rótulo.

Enquanto a garrafa espera deitada no armário, a carne de sol já está de molho faz duas horas. Manta de um quilo, dessalgada em água trocada três vezes, escorrida no pano e cortada em cubos de três dedos. A macaxeira cozinha na panela de pressão com um dente de alho e um punhado de sal, quinze minutos contados do primeiro chiado, até a ponta da faca entrar sem esforço.

A frigideira de ferro recebe manteiga de garrafa e cebola em meia-lua. Os cubos entram e soltam água, a água evapora, e só então a carne doura de verdade, com a borda escura e o miolo ainda úmido por dentro. A macaxeira volta pra mesma gordura, amassada na pressão do garfo, e puxa o sal que ficou no fundo da panela.

A mesa erra aqui de dois jeitos previsíveis. Serve cerveja gelada, que apaga o sal no primeiro gole e deixa a segunda garfada sem resposta nenhuma. Ou abre um tinto encorpado de madeira pesada, que encontra a manteiga de garrafa e amarra a boca, deixando baunilha por cima de uma carne que passou dias curando no sal.

A carne de sol com macaxeira pede três serviços do vinho ao mesmo tempo: tanino macio, que acompanha a fibra desfiada sem raspar a língua; acidez viva, que responde ao sal da cura; e fruta madura com uma ponta de pimenta, que conversa com a doçura da raiz cozida. Existe um tinto brasileiro que entrega os três entre R$ 50 e R$ 100, plantado na fronteira com o Uruguai. De onde vem a casta, por que o tanino dela não briga com carne curada e como chegar aos dezesseis graus com a frigideira ainda quente vêm logo abaixo. A garrafa vem primeiro.

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I  A Garrafa de Hoje

O gaúcho de R$ 68 nascido em 1961

Marselan da Campanha Gaúcha, Rio Grande do Sul, tinto seco de tanino macio e acidez viva. R$ 68.

Marselan é o nome da uva, cruzamento de Cabernet Sauvignon com Grenache Noir feito à mão por Paul Truel, geneticista do instituto agronômico francês INRA, em 1961, na comuna de Marseillan, no litoral do Languedoc, que batizou a casta. Truel queria uma videira com a resistência e o aroma da Cabernet e a produtividade da Grenache no calor mediterrâneo.

O resultado saiu com bago pequeno, e essa medida explica quase tudo o que aparece na taça. Bago pequeno tem mais casca por volume de polpa, e é na casca que moram cor, aroma e tanino. Por isso o Marselan chega roxo escuro, com cassis, ameixa madura e uma pimenta preta discreta no fundo, mas com tanino de textura aveludada, herança da Grenache, que passa pela língua sem lixar.

A Campanha Gaúcha, denominação do sudoeste do Rio Grande do Sul que encosta na fronteira com o Uruguai, recebeu as primeiras mudas de Marselan no começo dos anos 2000 e virou o endereço brasileiro da casta. Solo arenoso, verão seco de sol longo e noites frescas do pampa: a uva amadurece sem inchar de água e guarda ácido no bago.

O preço tem explicação mais chata que a geografia. A garrafa nacional não paga imposto de importação nem frete internacional, mas carrega tributo pesado sobre bebida e escala de produção pequena, e por isso encosta nos R$ 68. O que a faixa entrega em troca é casta única, guarda curta em madeira e produção contada.

Os números ficam assim:

Preço na vinícolaR$ 68
Preço no empórioR$ 112
Álcool declarado13,8%
Acidez total declarada5,2 g/L
Uva declaradaMarselan, 100%
Passagem por madeiraSeis meses em carvalho usado

- Preço na vinícola: R$ 68 - Preço no empório: R$ 112 - Álcool declarado: 13,8% - Acidez total declarada: 5,2 g/L - Uva declarada: Marselan, 100% - Passagem por madeira: seis meses em carvalho usado

São quarenta e quatro reais separando a garrafa idêntica do mesmo lote, apurado em 18/09/2026.

Na prateleira, procure Campanha Gaúcha na contra-etiqueta e leia a linha da casta logo abaixo. Varietal quer dizer uva única, e é o que a mesa de hoje pede. Assemblage, palavra francesa que indica mistura de castas, costuma cortar o Marselan com Tannat ou Cabernet Franc e devolve um tinto mais rígido na gengiva.

A guarda em carvalho usado, barrica que já recebeu outros vinhos e perdeu quase toda a baunilha, arredonda o tanino sem cobrir a fruta. Barrica nova nesta casta empurra a garrafa pros R$ 130.

Entre R$ 50 e R$ 100, a garrafa de hoje é essa: gaúcha, casta criada num laboratório francês em 1961, uma uva só a 13,8% de álcool, R$ 68 direto na vinícola. O que ela pede em troca é sal, fibra e gordura de manteiga, e a carne de sol com macaxeira entrega os três na mesma travessa.

 
 

II  Com o Que Combina

Sal da cura contra tanino aveludado

Carne de sol dessalgada, dourada na manteiga de garrafa e servida com macaxeira amassada muda o problema da taça: aqui o vinho encara sal concentrado pela cura, fibra desfiada e uma raiz doce e amilácea na mesma garfada.

O tanino macio é o primeiro serviço da garrafa, e é ele que decide o jantar. O tanino, substância adstringente da casca da uva que amarra a boca, precisa aqui de textura aveludada, não de aperto. Carne curada já chega com a fibra seca e concentrada, e tanino duro em cima dela deixa a língua áspera e a garfada arenosa. O Marselan entra macio, acompanha a fibra e sai sem raspar.

A acidez viva faz o segundo trabalho, e ela responde ao sal. Os 5,2 gramas por litro lavam o sal da cura e a manteiga de garrafa que engordurou a travessa, e devolvem a boca pronta pra próxima garfada. Vinho de acidez baixa nesse prato vira caldo morno na terceira colherada.

A fruta madura com pimenta preta fecha o terceiro serviço, e é aí que a compra costuma escorregar. A macaxeira traz amido e doçura suave, e um tinto de madeira nova responde a ela com baunilha e coco, dois doces empilhados. O cassis e a pimenta do Marselan cumprem o papel que o coentro picado e o limão cumprem no prato, levantando o sal sem adoçar nada.

A carne de sol com macaxeira pede tanino macio pra acompanhar a fibra curada e acidez viva pra lavar o sal e a manteiga de garrafa: com um tinto de barrica nova, a garfada vira baunilha sobre carne salgada; com cerveja gelada, o sal some no primeiro gole e a segunda garfada chega sem resposta.

A alternativa na mesma faixa é a Touriga Nacional da Campanha Gaúcha, R$ 79 na vinícola e R$ 128 no empório, apurado em 18/09/2026. Ela vem mais floral, com violeta e resina no nariz e tanino um pouco mais firme, e cai melhor quando a carne de sol chega grelhada na brasa, sem manteiga, ao lado de queijo coalho.

O que erra aqui é o Cabernet Sauvignon de barrica nova ou o tinto suave de garrafa grande. O primeiro traz tanino anguloso e madeira doce que abafam a carne curada; o segundo tem açúcar residual que soma com o amido da macaxeira e deixa a boca pastosa já na segunda garfada.

O critério cabe numa linha e vale pra qualquer carne curada no sal: quanto mais seca a fibra no prato, mais macio o tanino na taça, e quanto mais sal e gordura na travessa, mais acidez o tinto precisa trazer.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  Sem Cerimônia

Dezesseis graus com a frigideira quente

Antes de servir: tinto parado no armário da cozinha em setembro marca perto de vinte e três graus, e a frigideira de ferro aquece esse canto da casa por mais meia hora. Nessa temperatura o Marselan perde o desenho: o álcool sobe no nariz, a fruta madura fica pesada e o tanino aveludado some. A garrafa deve ficar quarenta minutos em pé na porta da geladeira antes do jantar, e sai de lá na faixa dos dezesseis graus.

O atalho: carne já na frigideira e garrafa morna na mão, balde com metade de gelo, metade de água e duas colheres de sal grosso, que derruba o ponto de congelamento da água e acelera a troca de calor. Mergulhada até o ombro, ela cai de vinte e três pra dezesseis graus em sete minutos, e quem esquecer ali por quinze entrega um tinto de aroma fechado e fruta apagada.

Na abertura: corte a cápsula abaixo do anel do gargalo, puxe a rolha com a espiral bem centrada e sirva direto. Marselan gaúcho de guarda curta dispensa decantador, e os vinte minutos de ar na taça já soltam a pimenta preta que estava escondida atrás da ameixa.

Na taça: encha até um terço numa taça de bojo médio, que concentra o aroma sem espalhar o álcool, e gire duas vezes antes do primeiro gole, segurando pela haste, porque a palma da mão esquenta o vinho um grau a cada poucos minutos.

Dezesseis graus é o ponto em que a fruta aparece inteira e o tanino chega aveludado. Três graus abaixo fecham o aroma e endurecem a boca; três acima e o álcool domina o nariz, o que faz muita gente jurar que tinto brasileiro arde, quando o problema estava no termômetro da cozinha.

A garrafa não fica ao lado do fogão. O calor do ferro e o vapor da manteiga aquecem a bancada, e a taça deixada ali sobe dois graus enquanto a macaxeira termina de amassar. O caminho é servir e devolver: cada rodada manda a garrafa pra porta da geladeira, e a última garfada encontra o vinho na temperatura da primeira.

A sobra tem destino, e ele não é a pia. Rolha de volta no gargalo e garrafa em pé na geladeira: o Marselan aguenta dois dias com a fruta viva, e uma taça reduzida com cebola e manteiga vira molho pra carne que sobrou, sobre arroz branco.

A mesa fica assim: a frigideira no centro, a macaxeira amassada ao lado com coentro por cima e a taça de tinto na mão, sem ninguém explicando o rótulo pra ninguém.

O jantar completo pra quatro pessoas fecha em R$ 68 de vinho e R$ 86 de compra, com um quilo de carne de sol, um quilo e meio de macaxeira, manteiga de garrafa, duas cebolas, uma cabeça de alho, um maço de coentro e dois limões, tudo cotado em 18/09/2026.

"O último jantar de carne de sol da sua casa recebeu cerveja de lata ou um Marselan de R$ 68 servido a dezesseis graus?"

 
 

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Segundo a edição, quais duas castas foram cruzadas em 1961 para criar a uva Marselan?

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