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Zweigelt de R$ 119 pro joelho de porco
Faixa acima de R$ 100: o Zantho Zweigelt traz cereja e acidez viva pra cortar a gordura do joelho com chucrute, a 14 graus.
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O joelho com chucrute e a taça austríaca
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O Zantho Zweigelt, tinto do Burgenland, na Áustria, saiu a R$ 119 no site da importadora e a R$ 172 no empório do bairro, os dois preços conferidos em 24/09/2026. Os cinquenta e três reais de distância pagam a gôndola refrigerada, o estoque parado de quem compra pouco e a margem do distribuidor intermediário; a importadora vende do galpão onde o contêiner descarregou. Mesma garrafa, mesma safra, mesma tampa de rosca.
No forno, o joelho de porco já está na terceira hora. A peça (a articulação da pata traseira, com osso, couro e uma capa grossa de gordura) passou a noite num tempero de alho, cebola, louro e cerveja, cozinhou em fogo baixo e agora assa até o couro estalar feito torresmo. Na panela ao lado, o chucrute (repolho fermentado em sal, azedo e crocante) aquece com alcaravia, semente de sabor parecido com o do cominho.
O prato chegou ao sul do Brasil com os imigrantes alemães e austríacos do século dezenove e hoje ocupa o cardápio de cervejaria de Blumenau a Porto Alegre. Em Viena, a mesma peça atende por Stelze (joelho, no dialeto austríaco) e sai das tavernas de vinho nos arredores da cidade, as Heurigen, servida com mostarda e raiz-forte.
A mesa costuma tropeçar de dois jeitos. Pede um tinto encorpado de tanino duro, e a gordura do couro se junta ao tanino num gosto de papel molhado. Ou apela pra cerveja gelada, que lava a boca e deixa o azedo do chucrute sozinho, sem nada que responda.
O joelho pede três serviços da taça: acidez alta, pra cortar a gordura como faz o limão no torresmo; fruta vermelha fresca, que converse com o agridoce do repolho; e tanino leve, que não brigue com o couro. Existe uma uva austríaca que entrega os três, criada numa escola de viticultura perto de Viena há pouco mais de cem anos. Quem a criou, de quais uvas nasceu e por que ela vai à mesa a catorze graus, as três faixas abaixo respondem. A garrafa vem primeiro.
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I A Garrafa de Hoje
Uma cruza de 1922 em Klosterneuburg
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Zantho Zweigelt, Burgenland, Áustria, tinto seco. R$ 119 a garrafa.
O Zweigelt nasceu em 1922, na escola federal de viticultura de Klosterneuburg, às margens do Danúbio, quando o pesquisador Friedrich Zweigelt, chamado de Fritz, cruzou duas tintas austríacas: a Blaufränkisch, de tanino firme e pimenta, e a St. Laurent, macia e perfumada de cereja. O objetivo era uma uva que amadurecesse cedo e aguentasse o inverno do leste do país.
O batismo original foi Rotburger (burguês vermelho, em alemão). Nos anos 1970, o viticultor Lenz Moser, criador do sistema de parreira alta mais usado no país, passou a vender a uva com o sobrenome do pesquisador, e o rótulo pegou.
O sobrenome virou incômodo depois. Fritz Zweigelt se filiou ao partido nazista nos anos 1930 e dirigiu a escola de Klosterneuburg durante a anexação da Áustria pela Alemanha. Na década de 2010, produtores e historiadores pediram a volta do nome Rotburger; a troca não foi aprovada, e a maioria dos rótulos manteve Zweigelt.
Hoje é a tinta mais plantada da Áustria. Segundo a Austrian Wine Marketing Board, no cadastro de vinhedos de 2020, ocupa cerca de 14% da área de uva do país, à frente da própria Blaufränkisch.
A garrafa de hoje vem do Burgenland, a região na fronteira com a Hungria, perto do lago Neusiedl, raso e largo, que devolve calor às parreiras quando a tarde cai. A Zantho é uma sociedade entre o produtor Josef Umathum e a cooperativa Winzerkeller Andau, com vinhedos em torno da vila de Andau.
Na taça, o Zweigelt mostra cereja-preta e ameixa fresca, uma pitada de pimenta herdada da Blaufränkisch e acidez viva, a sensação de boca salivando depois do gole. O tanino é baixo; o corpo, médio. O Zantho fermenta em inox e descansa alguns meses em tonel grande de carvalho usado, que arredonda sem dar gosto de madeira.
Jancis Robinson, Julia Harding e José Vouillamoz descrevem a variedade no livro Wine Grapes (2012) como a tinta mais plantada da Áustria, de fruta de cereja e feita pra beber jovem.
Os números ficam assim:
| Preço na importadora | R$ 119 | | Preço no empório | R$ 172 | | Volume da garrafa | 750 ml | | Álcool declarado | 12,5% | | Ano da cruza | 1922 | | Área na Áustria | 14% | | Temperatura de serviço | 14 °C |
São cinquenta e três reais separando a mesma garrafa austríaca, conferido em 24/09/2026. |
Na prateleira, procure Zantho em letras grandes e Zweigelt logo abaixo, em rótulo branco. A tampa é de rosca, padrão na Áustria, e não indica vinho barato: protege a fruta fresca, o melhor que a uva tem.
O preço tem conta simples: vinho de cooperativa com escala, sem barrica nova, frete marítimo desde Hamburgo e imposto de importação. Os R$ 119 compram uma garrafa feita pra ser aberta nos próximos três anos, e é jovem que ela deve ser bebida.
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II Com o Que Combina
Cereja contra a gordura do couro
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O joelho de porco reúne três forças no prato: a gordura do couro e da capa, a carne adocicada pelo cozimento longo e o azedo do chucrute fermentado. |
A acidez faz o trabalho pesado. Cada gole de Zweigelt deixa a boca salivando, e a saliva limpa a gordura que o couro deixou na língua. A garfada seguinte chega com o gosto inteiro, sem a película oleosa da anterior.
A fruta de cereja conversa com o agridoce. O chucrute tem azedo de fermentação e, quando leva maçã ralada ou um fio de açúcar mascavo, como em muitas cervejarias do sul, puxa pro doce; a cereja do vinho acompanha as duas pontas.
O tanino baixo evita o choque. Tanino (a substância da casca da uva que seca a boca) em excesso agarra na gordura e deixa um amargor seco; o Zweigelt tem pouco, e o couro crocante passa liso.
A pimenta do vinho encontra o tempero do prato. A pitada herdada da Blaufränkisch faz eco à alcaravia do chucrute e à mostarda escura que acompanha a peça.
Os acompanhamentos da cervejaria cabem na mesma taça. Batata cozida com salsinha, purê de maçã e salsicha branca pedem a mesma acidez; a raiz-forte (Kren, em alemão, uma raiz picante ralada na hora) pede um gole maior, porque o ardido sobe pelo nariz.
A alternativa na mesma faixa é um Blaufränkisch do Burgenland, R$ 129 na importadora e R$ 180 no empório, conferido em 24/09/2026. Ele tem mais tanino e mais pimenta, e funciona quando o joelho sai defumado, com gosto de lenha mais forte.
Erra nesta mesa o Cabernet Sauvignon chileno de barrica nova: tanino alto e baunilha brigam com o azedo do repolho. O Malbec maduro também sobra, com fruta em compota que pesa sobre a gordura.
O critério serve pra qualquer carne gorda com conserva ácida, da costelinha com picles ao pernil com repolho roxo: acidez alta pra limpar, fruta fresca pro agridoce e tanino na medida da maciez da carne.
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