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Mencía de R$ 49 pro torresmo
Faixa até R$ 50: o Mencía do Bierzo, de encosta de xisto, traz fruta vermelha e acidez viva pro torresmo, a 14 graus.
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O torresmo e a taça do Bierzo
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O Viñas del Bierzo Mencía 2024, tinto da província de León, no noroeste da Espanha, saiu a R$ 49 no site da importadora e a R$ 68 na gôndola do supermercado, os dois preços conferidos em 27/09/2026. Os dezenove reais de distância pagam frete fracionado, a margem do varejo e a vitrine: a garrafa fica em pé, sob lâmpada, perto da porta. Mesma safra, mesmo rótulo.
O torresmo de barriga começa um dia antes. A peça de barriga de porco, com couro, leva sal grosso por cima e passa a noite descoberta na geladeira, pro couro secar. No dia, vai em cubos de três dedos pra panela funda, coberta de banha fria, e cozinha em fogo baixo por quarenta minutos. Depois sai, escorre e volta à gordura bem quente até o couro estufar em bolhas.
É petisco mineiro de balcão e de fim de tarde, servido com limão-cravo, pimenta biquinho e uma porção de mandioca cozida. Cada cubo tem três andares: couro que estala, uma faixa de gordura macia e a carne rosada no meio, com sal por cima de tudo.
A mesa costuma errar de dois jeitos. Serve cerveja estupidamente gelada, que refresca e some sem dizer nada sobre o porco. Ou abre um tinto encorpado de madeira, e o tanino, somado ao sal e à gordura, deixa a boca áspera e pesada no terceiro cubo.
O torresmo pede três serviços da taça: acidez que limpe a gordura, fruta que dê descanso ao sal e corpo leve, que não empilhe peso sobre peso. Uma uva do noroeste espanhol, plantada em morro de xisto na rota dos peregrinos de Santiago, cumpre os três e custa menos de cinquenta reais. Que uva é essa, por que a acidez corta a banha e por que a garrafa vai à mesa a catorze graus, as três faixas abaixo respondem. A garrafa abre a conversa.
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I A Garrafa de Hoje
Fruta vermelha de morro de xisto
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Viñas del Bierzo Mencía, Bierzo, Espanha, tinto seco. R$ 49 a garrafa.
A Mencía é uva tinta do noroeste da Península Ibérica, de cacho médio e casca fina, que amadurece cedo: no Bierzo, a colheita costuma entrar em setembro, antes das chuvas atlânticas de outono.
A casca fina explica a cor clara na taça, um rubi translúcido que deixa ver o fundo do copo, e o tanino discreto. Pouca casca dá pouco tanino e pouca cor.
O Bierzo é um vale cercado de serras no oeste da província de León, em Castela e Leão, colado à Galícia. A cidade principal é Ponferrada, e o Caminho de Santiago (a rota medieval de peregrinação até a catedral de Santiago de Compostela) atravessa os vinhedos de ponta a ponta.
As vinhas antigas sobem pelas encostas em solo de xisto, a rocha escura que se parte em lâminas finas, que os espanhóis chamam de pizarra (ardósia). O xisto drena a chuva depressa e obriga a raiz a descer fundo atrás de água.
O clima explica a acidez. O vale recebe umidade do Atlântico pela Galícia e calor do planalto de Castela, e as noites de fim de verão esfriam bem. A uva junta açúcar de dia e guarda acidez de noite.
No rótulo, a sigla DO (Denominação de Origem, o selo espanhol que garante a região) confirma uva do Bierzo. A DO foi criada em 1989. Por boa parte do século XX, a Mencía de lá virou vinho de granel, barato e esquecido, vendido em garrafão pras tabernas do vale.
A virada veio no fim dos anos 1990, quando o enólogo Álvaro Palacios e o sobrinho Ricardo Pérez Palacios fundaram a Descendientes de J. Palacios, em Villafranca del Bierzo, e mostraram que as vinhas velhas de encosta davam tintos finos. Esses rótulos passam de R$ 300 no Brasil.
Jancis Robinson, Julia Harding e José Vouillamoz registram no livro Wine Grapes (2012) que a Mencía do Bierzo e a Jaen do Dão, em Portugal, são a mesma uva, identidade confirmada por análise de DNA.
A cor clara engana quem compra pelo olho. Tinto translúcido parece fraco na prateleira, e o Mencía entrega na boca a acidez e o perfume que o rubi pálido não anuncia.
Na taça, o Mencía jovem mostra framboesa, cereja vermelha, violeta e um toque de pedra molhada. A acidez faz a boca salivar; o tanino é fino, quase de pó.
Casca fina, xisto e noite fria: a receita de um tinto leve que chega ácido à mesa. |
O preço é de cooperativa. A Viñas del Bierzo, em Camponaraya, reúne viticultores do vale e engarrafa o Mencía joven (jovem, sem passagem por barrica) poucos meses depois da colheita. Os R$ 49 compram fruta fresca, sem madeira pra pagar.
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II Com o Que Combina
Acidez contra a banha
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O torresmo junta três frentes na boca: a gordura derretida da barriga, o sal grosso do couro e a crocância que arranha o céu da boca. |
A acidez trabalha na gordura. Ela faz a boca salivar, a saliva lava a película de banha que cobre a língua, e o cubo seguinte chega com o gosto inteiro, sem o peso do anterior.
O sal pede fruta. Torresmo bem salgado deixa vinho de fruta madura com gosto doce demais; a framboesa ácida do Mencía equilibra o sal sem virar sobremesa.
O tanino baixo evita o atrito. Tanino alto somado a sal e crocância resseca a boca e deixa gosto metálico; o Mencía jovem tem tanino fino o bastante pra passar pelo couro sem raspar.
O limão-cravo espremido por cima conversa com o vinho: a acidez do limão e a do Mencía se somam, e a gordura some ainda mais depressa. Pimenta biquinho, doce e pouco ardida, também funciona.
A pimenta forte muda a conta. Malagueta em conserva realça o álcool do vinho e queima mais; quem gosta de ardido deve servir a garrafa ainda mais fresca, a doze graus.
A mandioca cozida entra como descanso. Amido neutro, sem sal, ela absorve a gordura e prepara a boca pro próximo gole.
A ordem dos petiscos muda o gole. Torresmo recém-saído da panela pede o vinho logo depois do primeiro cubo; a mandioca vem entre um e outro, e a taça volta quando o sal reaparece.
O torresmo de pururuca (couro estufado em bolhas, quase sem carne) pede ainda mais acidez, porque é quase só gordura e sal. O torresmo de barriga com carne aceita o Mencía com folga.
Na mesma faixa, um Vinho Verde tinto da uva Vinhão, do norte de Portugal, sai a R$ 45 na importadora e a R$ 59 no supermercado, conferido em 27/09/2026. Tem acidez ainda maior e cor quase preta, e funciona quando o torresmo vem muito salgado.
Erra nesta mesa o Cabernet chileno de reserva, com tanino firme e madeira que brigam com o sal. O Malbec maduro também sobra: álcool alto que esquenta a gordura.
O critério vale pra outros petiscos de porco frito, da pururuca à costelinha de boteco: acidez alta pra limpar a banha, tanino baixo pro sal e corpo leve que não empilhe peso.
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