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Alicante Bouschet, Vale do São Francisco, Pernambuco e Bahia, Brasil, tinto seco, safra 2024. R$ 46 a garrafa.
Quase toda uva tinta tem polpa clara. A cor do vinho mora na casca, e o suco só fica vermelho porque passa dias de molho com ela no tanque. Espremida na hora, uma Cabernet Sauvignon solta um caldo quase transparente.
A Alicante Bouschet faz o contrário. Ela é uma teinturier (tintureira, uva de polpa e suco vermelhos), e sangra cor no instante em que a baga rompe. Poucas uvas de vinho no mundo têm essa polpa tinta.
A uva nasceu de propósito, num viveiro do sul da França. Em 1824, o agrônomo Louis Bouschet cruzou a Aramon, uva de muito volume e pouca cor, com a Teinturier du Cher, de polpa vermelha. O filho recebeu o nome de Petit Bouschet.
Em 1866, o filho dele, Henri Bouschet, cruzou a Petit Bouschet com a Grenache e chegou à uva que leva o sobrenome da família. O objetivo era prático: dar cor aos vinhos ralos do Languedoc, que saíam da prensa quase rosados.
A praga da filoxera (um inseto que come a raiz da videira) arrasou os vinhedos franceses no fim do século XIX. Na replanta, a Alicante Bouschet se espalhou pela Espanha, por Portugal e pelo Alentejo, onde virou estrela de vinho de mesa.
No Brasil, ela chegou com imigrantes portugueses e italianos e serviu por décadas pra escurecer o vinho de garrafão da Serra Gaúcha. O sertão do São Francisco adotou a uva pelo motivo de sempre: o sol forte engrossa a casca, e a polpa vermelha garante cor mesmo em safra rápida.
Polpa vermelha, casca grossa e sol de sertão: um tinto escuro de amora com tanino que desliza na boca. |
O pigmento que tinge a polpa é a antocianina (a mesma substância roxa da jabuticaba e do açaí). Como ele está no suco desde a prensa, o vinho sai escuro sem passar semanas extraindo tanino da casca. Fica a cor, sobra pouca aspereza.
Na taça, o Alicante mostra roxo quase preto, tão denso que não se vê o dedo pelo outro lado. O cheiro é de amora, ameixa preta e um fundo de pimenta-do-reino e terra molhada. Na boca, é seco, encorpado e de tanino redondo.
O rótulo de linha nessa faixa de preço passa em tanque de inox, sem barrica nova. É vinho pra beber nos dois primeiros anos, com a fruta na frente. A safra 2024 está no ponto.
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