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Cinsault Gallardía, De Martino, Vale do Itata, Chile, tinto seco, safra 2023. R$ 98 a garrafa.
Cinsault, que se pronuncia “sensô”, é uva tinta do sul da França, da região do Languedoc, onde entra em rosés e em cortes de tinto leve. Tem cacho grande, bago carnudo e casca fina, e a casca fina dá vinho claro e macio.
O Vale do Itata fica na região de Ñuble, cerca de 400 quilômetros ao sul de Santiago, entre a cidade de Chillán e o Oceano Pacífico. É uma das zonas de vinho mais antigas das Américas: os colonos espanhóis plantaram ali a uva País ainda no século 16.
A Cinsault chegou ao vale depois do terremoto de Chillán, em janeiro de 1939, que arrasou a cidade e boa parte das adegas da zona. Na reconstrução, o governo chileno distribuiu mudas francesas pra replantar os vinhedos, e a Cinsault vingou nas encostas do Itata.
O chão é de granito decomposto, uma areia grossa e pobre que escoa a chuva rápido. A raiz desce fundo atrás de água, a planta produz poucos cachos, e cada bago concentra fruta sem engordar o vinho.
As vinhas são de secano (cultivo sem irrigação, só com a chuva do inverno), como quase tudo no Itata. O pequeno produtor da zona nunca teve canal de rega, e a falta virou estilo: a uva amadurece no ritmo do clima, com álcool contido.
Muitos pés passam de 60 anos e crescem em cabeza (a videira em arbusto solto, sem arame nem estaca), podados rente ao chão. O trabalho é todo à mão, do corte do cacho ao transporte em caixa pequena até a cantina.
Vinha velha, granito e chuva de inverno: o Cinsault do Itata é tinto de boteco com raiz de campo. |
O Itata passou décadas vendendo uva a granel pras grandes vinícolas do centro do país, com o quilo pago barato. A partir dos anos 2010, produtores como a De Martino começaram a engarrafar o Cinsault do vale com a origem no rótulo, e a garrafa chega ao Brasil abaixo de R$ 100 porque terra e mão de obra ali custam pouco.
Na taça, mostra rubi claro, quase transparente. O cheiro é de morango, framboesa, cereja fresca e um toque de flor seca. Na boca, é seco, de corpo leve, acidez alta, tanino baixo e 13% de álcool.
O vinho fermenta em tanque de inox ou em tinaja (talha de barro, usada no Chile desde a colônia) e quase não vê barrica. É feito pra beber nos três primeiros anos, e a safra 2023 está no ponto.
Na prateleira, procure as palavras Cinsault e Itata no rótulo. O Carménère e o Cabernet Sauvignon do Vale Central, mais fáceis de achar, chegam com 14% de álcool e tanino firme, e não servem pra este prato.
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