|
Narince, Kayra, Tokat, Turquia, branco seco, safra 2023. R$ 96 a garrafa.
Narince, que se pronuncia “nárindje”, quer dizer “delicadamente” em turco. É a uva branca nativa mais respeitada do país, plantada há séculos na província de Tokat, no norte da Anatólia, a cerca de 100 quilômetros do Mar Negro.
O coração da uva é o vale do Yeşilırmak, rio cujo nome turco significa “rio verde”. Ele nasce nas montanhas do interior, corta Tokat e desce até desaguar no Mar Negro, perto da cidade de Samsun.
O vale fica entre montanhas, a uns 600 metros de altitude. O ar úmido do Mar Negro sobe pelo leito do rio, e as noites frias seguram a acidez da uva enquanto o dia quente amadurece o cacho.
A combinação explica o cítrico. Noite fria preserva o ácido do bago, e a uva chega à colheita com gosto de limão e de toranja, sem perder fruta. Num vale quente e seco, a mesma uva sairia mole e alcoólica.
O chão é de aluvião, a terra que o rio deposita nas cheias, misturado com argila e calcário nas encostas. Ele guarda água pro verão e dá à uva corpo médio, mais encorpado que um branco de praia e mais leve que um Chardonnay de barrica.
A Narince tem uso duplo em Tokat. A folha da videira é fina e macia, e as famílias da região colhem as folhas na primavera pra fazer sarma (o charutinho de folha de uva recheado com arroz). Muitos vinhedos vendem folha e uva no mesmo ano.
Rio verde, noite fria e chão de aluvião: o Narince de Tokat é branco de corpo médio com acidez de limão. |
A Turquia é grande produtora de uva, mas a maior parte vira passa, suco e uva de mesa, e o país bebe pouco vinho. Com consumo interno pequeno, a garrafa turca chega ao Brasil abaixo de R$ 100: o produtor precisa exportar, e a uva nativa ainda não tem fama pra cobrar caro.
Na taça, mostra amarelo-palha com reflexo verde. O cheiro é de limão-siciliano, toranja, maçã verde, pera e um toque de flor branca. Na boca, é seco, de corpo médio, acidez alta, final levemente amargo de casca de cítrico e 12,5% de álcool.
A versão de entrada da Kayra fermenta em tanque de inox e não passa por barrica, o que mantém o cítrico em primeiro plano. Existem Narince envelhecidos em carvalho, mais caros e amanteigados, que não servem pra fritura com limão.
Na prateleira, procure a palavra Narince e a região Tokat no rótulo. Se aparecer “meşe” (carvalho, em turco), a garrafa passou por barrica e fica pesada pro peixe.
|