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Jacquère, Domaine Jean Perrier, Apremont, Savoia, França, branco seco, safra 2023. R$ 129 a garrafa.
A Jacquère é a uva branca mais plantada da Savoia, região dos Alpes franceses na fronteira com a Suíça e a Itália. Tem cacho grande, casca fina e produz muito, e por séculos virou o vinho jovem servido nos chalés das estações de esqui.
Apremont é uma das aldeias da Savoia com direito a pôr o próprio nome no rótulo, o que os franceses chamam de cru (vinhedo de nome reconhecido). Fica ao sul de Chambéry, no pé do Mont Granier, um paredão de calcário de 1.933 metros.
Na noite de 24 de novembro de 1248, um pedaço enorme da face norte do Granier se soltou e desceu pelo vale. Os blocos soterraram várias paróquias, entre elas a aldeia de Saint-André, então sede de um decanato (grupo de igrejas sob um mesmo deão).
O número de vítimas ficou sem registro confiável. As crônicas medievais dão cifras muito distantes entre si, e nenhum rol de moradores das aldeias soterradas sobreviveu pra fechar a contagem.
O desabamento deixou um campo de pedras e entulho de calcário espalhado por quilômetros, a área chamada até hoje de Abymes de Myans (os abismos de Myans). Séculos depois, os camponeses limparam os blocos maiores e plantaram videira entre os restos.
O solo de Apremont é feito desse entulho: cascalho de calcário, pouca terra e drenagem rápida. A água da chuva escorre entre as pedras, a raiz desce fundo e a uva amadurece sem inchar de água.
A altitude completa o desenho. Os vinhedos ficam entre 300 e 500 metros, sob o vento frio que desce dos Alpes à noite. O dia amadurece a uva; a noite segura a acidez até a colheita, no fim de setembro.
Uva de casca fina, entulho de calcário e noite alpina: a Jacquère de Apremont sai leve, seca e cítrica. |
Na adega, os Perrier fermentam o suco em tanque de inox, em temperatura baixa, e engarrafam na primavera seguinte. Nenhuma madeira entra no caminho, e o vinho guarda a fruta fresca e o traço de pedra.
Na taça, mostra amarelo muito claro com reflexo esverdeado. O cheiro lembra limão-siciliano, maçã verde, flor branca e pedra molhada.
Na boca, é seco, leve e de 11% de álcool, dois ou três pontos abaixo de um Chardonnay comum. A acidez é viva, e o final curto deixa um amargor fino de casca de limão.
A safra 2023 chega com dois anos de garrafa. A Jacquère pede consumo jovem: até três anos depois da colheita, a fruta fica no auge, e a garrafa desta mesa está dentro do prazo.
O preço reflete a viagem. A Savoia exporta pouco, boa parte da produção some nas estações de esqui da própria região, e a garrafa ainda cruza o Atlântico e paga imposto de importação.
Na prateleira, procure Vin de Savoie Apremont (vinho da Savoia de Apremont) no rótulo. O vizinho Abymes, plantado sobre o mesmo campo de pedras, traz a mesma uva com perfil um pouco mais floral e serve à truta igual.
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