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Nuragus de R$ 49 pro pão de queijo

Até R$ 50: o Nuragus de Cagliari, branca antiga do sul da Sardenha, chega leve e cítrico pro pão de queijo, a 9 graus.

A cesta de pão de queijo e a taça de Nuragus sardo.

O Nuragus sardo e o pão de queijo mineiro

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O Argiolas S'elegas Nuragus di Cagliari 2024 saiu a R$ 49 numa importadora de Curitiba e a R$ 74 num empório de Pinheiros, em São Paulo, preços lidos nos dois sites em 20/10/2026. Os R$ 25 de distância cobrem o aluguel do bairro caro, a geladeira de brancos ligada o dia inteiro e o lote miúdo de quem compra poucas caixas da Sardenha por ano.

O pão de queijo saiu das cozinhas de fazenda de Minas Gerais. Sem trigo à mão, as cozinheiras usavam o polvilho, a goma que assenta no fundo da bacia quando se lava a mandioca ralada, e juntavam o queijo curado da casa, ovo e gordura quente.

Na mesa da tarde, ele chega em cesta de pano, com café coado, requeijão e às vezes uma fatia de goiabada. A casca estala, o miolo puxa em fio e o queijo meia-cura deixa sal e gordura na ponta dos dedos.

Cada bolinha pesa em três frentes. O queijo salgado cobre a língua de gordura. O polvilho azedo (a fécula de mandioca deixada a fermentar ao sol) traz uma acidez leve de coalhada. E a casca tostada deixa um amargo de forno no final da mordida.

Dois copos tropeçam nessa cesta. Um tinto encorpado, com madeira, pesa sobre a massa leve e deixa o queijo com gosto metálico. Um espumante doce some atrás do sal e transforma o lanche em sobremesa sem convite.

O pão de queijo pede um branco leve, de acidez alta e álcool contido, capaz de lavar o sal sem competir com o queijo. Uma uva antiga do sul da Sardenha, plantada nas planícies quentes ao redor de Cagliari e refrescada pelo vento do mar, entrega as três exigências por menos de R$ 50.

Quem levou a uva para a ilha, por que o limão do vinho conversa com o polvilho azedo e como deixar a garrafa a 9 graus numa tarde quente: a primeira faixa abre o rótulo.

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I  A Garrafa de Hoje

A uva das torres de pedra

Argiolas S'elegas, Nuragus di Cagliari DOC, Sardenha, Itália, branco seco, safra 2024. R$ 49 a garrafa.

Nuragus é uma uva branca da Sardenha, a ilha italiana no meio do Mediterrâneo, a oeste de Roma. A sigla DOC do rótulo quer dizer Denominação de Origem Controlada, o selo italiano que fixa a região e as regras de cultivo. A Argiolas, vinícola de família fundada em 1938 por Antonio Argiolas em Serdiana, perto de Cagliari, engarrafa a uva de vinhedos próprios.

A palavra vem dos nuraghi (torres cônicas de pedra seca erguidas na ilha na Idade do Bronze, há mais de 3 mil anos). Milhares delas ainda pontuam os campos sardos. A ligação entre a uva e as torres fica no batismo: ninguém provou que os construtores dos nuraghi já cultivavam a videira.

Quem levou a uva para a ilha segue sem resposta. A hipótese mais repetida aponta os fenícios, navegadores do atual Líbano que fundaram Cagliari por volta do século 8 antes de Cristo, mas nenhum documento antigo cita a uva, e a origem continua aberta. O registro firme vem séculos depois, nos vinhedos do sul da ilha.

O Nuragus cresce na planície do Campidano e nas colinas da Trexenta, ao norte de Cagliari. O chão mistura argila, areia e cascalho de rio. A uva dá cacho grande, rende muito por planta e, durante séculos, abasteceu o vinho de mesa da ilha inteira.

O verão sardo passa dos 35 graus e quase não chove. O maestrale (vento frio do noroeste) e a brisa do mar baixam a temperatura à noite, e a uva guarda acidez mesmo madura. A colheita corre em setembro, cedo, pra preservar o frescor.

Vento do mar, colheita cedo e cacho farto: o Nuragus chega ao copo leve, cítrico e barato.

Na adega, o mosto fermenta frio em tanque de inox, e o vinho vai à garrafa poucos meses depois, sem madeira. O rótulo pede consumo jovem: a safra chega às lojas no ano seguinte à colheita e rende melhor nos primeiros dois anos.

No copo, aparece limão-siciliano, maçã verde, pera, flor branca e um fundo de amêndoa. O gole é seco e leve, com 12% de álcool, acidez viva e um toque salino no final.

O preço fica abaixo de R$ 50 por três motivos. A uva rende muito por hectare, o vinho dispensa barril e tempo de adega, e a Sardenha ainda vende pouco fora da Itália, sem a fama que encarece outras regiões.

Na prateleira, procure Nuragus di Cagliari no rótulo. A Cantina Santadi, do sudoeste da ilha, engarrafa a mesma uva na mesma faixa de preço. Vermentino di Sardegna é outro branco sardo, mais aromático e um pouco mais caro.

 
 

II  Com o Que Combina

Polvilho, queijo e limão-siciliano

O pão de queijo pede ao vinho acidez pra lavar o sal, álcool baixo pra não pesar na massa e fruta cítrica pro polvilho azedo.

A acidez lava o queijo. O meia-cura deixa sal e gordura presos na língua, e cada gole do Nuragus age como água com limão: limpa a boca e devolve a fome pra bolinha seguinte.

O cítrico encontra o azedo. O polvilho fermentado tem um travo leve de coalhada, e o limão-siciliano do vinho fica no mesmo registro, como casca de limão ralada sobre um queijo fresco.

O álcool baixo respeita a massa. O pão de queijo é ar por dentro, e um vinho de 14% esquentaria a boca e cobriria o miolo. Com 12%, o Nuragus acompanha sem empurrar.

A amêndoa do final conversa com a casca. O forno tosta a superfície da bolinha e deixa um amargo de castanha, e o fim amendoado do vinho repete a nota.

O toque salino completa o queijo. O meia-cura já traz o próprio sal, e o vinho criado com vento do mar faz eco a ele sem salgar a boca.

O pão de queijo pra quatro leva 500 gramas de polvilho azedo, 200 gramas de queijo meia-cura ralado, dois ovos, uma xícara de leite, meia xícara de óleo e uma colher de chá de sal. Ferva o leite com o óleo e o sal, escalde o polvilho e mexa até amornar. Junte os ovos um a um e depois o queijo, sove até a massa desgrudar da mão, enrole as bolinhas e asse a 180 graus por 25 minutos.

Até R$ 50, um Vinho Verde português (branco jovem do noroeste de Portugal) custa R$ 39 num supermercado de Belo Horizonte e R$ 46 numa importadora do Recife, valores lidos em 20/10/2026. Tem acidez parecida e uma ponta de gás, e resolve quando o Nuragus some da prateleira.

O Chardonnay com barril pesa sobre a massa e cobre o queijo de baunilha. O Moscato doce some atrás do sal.

Vale também pra broa de milho com queijo e pra chipa paraguaia (rosca de polvilho e queijo): acidez alta, álcool baixo e fruta cítrica.

 
 

III  Sem Cerimônia

Nove graus pro café da tarde

O Nuragus vai à mesa a 9 graus. Num outubro quente, a garrafa do armário passa dos 24 graus, e quente assim o álcool aparece, o limão amolece e o vinho fica chato ao lado do queijo.

1. Na geladeira: três horas na prateleira de baixo levam a garrafa de 24 a 9 graus. Guarde logo depois do almoço.

2. Na pressa: gelo até a metade de um balde e água fria até cobrir o ombro da garrafa, 15 minutos, girando de vez em quando.

3. Na abertura: a Argiolas fecha com rolha. Abra na hora de servir; branco jovem dispensa respiro.

4. No copo: taça de branco, de boca estreita, cheia até um terço.

5. No forno: tire as bolinhas quando a casca dourar e sirva em até dez minutos, com o miolo ainda puxando fio.

A 9 graus, o limão desperta e o álcool se esconde. A 5, direto do fundo da geladeira, o vinho fica mudo e só sobra a acidez; a 14, a fruta murcha e o gole perde o frescor.

O frio favorece o Nuragus porque ele aposta tudo na acidez e no aroma delicado. Branco leve não tem corpo pra disfarçar o calor, e cada grau a mais aparece no copo.

O pão de queijo sai quente do forno, e a cesta aquece o ar em volta. Deixe a garrafa num balde com gelo longe da cesta e sirva meia taça por vez.

Com quatro pessoas, uma garrafa dá duas rodadas de meia taça e acompanha a fornada inteira. Se vier a segunda fornada, conte outra garrafa.

Aberto, o Nuragus dura 2 dias com a rolha de volta, em pé na geladeira. No dia seguinte, ele ainda acompanha o pão de queijo requentado na frigideira, com a casca crocante outra vez.

Em Cagliari, o Nuragus vai à mesa com pane carasau (pão sardo fino e crocante, assado duas vezes) e pecorino sardo fresco, queijo de leite de ovelha. O lanche de lá repete a lógica do mineiro: massa crocante, queijo salgado e um branco ácido no copo.

“Na próxima fornada, o pão de queijo vai com café ou com um Nuragus de R$ 49 a 9 graus?”

O café da tarde pra 4 pessoas sai por R$ 84, com o Nuragus a R$ 49, 500 gramas de polvilho azedo a R$ 9, 200 gramas de queijo meia-cura a R$ 18 e ovos, leite e óleo a R$ 8, preços de 20/10/2026.

 
 
Quiz da edição

Quanto tempo o Nuragus passa na prateleira de baixo da geladeira para cair de 24 para 9 graus?

A1 hora
B6 horas
C3 horas
D12 horas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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